Outra forte referência de minha infância com vovó eram as viagens para Arcoverde. Quando chegava o final de novembro, entrando de férias, nos preparávamos para ir para lá. Geralmente, íamos de ônibus. O TIP não existia ainda e íamos para aquela antiga rodoviária, perto do cais. Eram cerca de 5 horas de viagem para Arcoverde. Vovó, muitas vezes, comigo, Surama e Fabian e as bagagens (eram “malas” e “malas”... três crianças, hein? E, às vezes, algum outro primo, como Ilvinho ou Rodrigo....), ia sempre paciente e cuidadosa conosco. Lembro muito de mim e de Surama viajando com ela.
Como toda criança, de minutos em minutos, eu perguntava a vovó: “Falta muito para chegar, vó?” Dependendo do lugar, ela dava a informação: “falta”; ou então, “um pouquinho”, ou então: “mais ou menos”. Para me certificar da distância, insistia na pergunta: “faltam quantas cidades?” E lá ia vovó, pacientemente, repetindo a cada questionamento, a fileira de cidades para se chegar em Arcoverde: “Gravatá, Bezerros, Caruaru...” Ufa, aí eu sempre entendia que estava na metade da viagem! ... “Caruaru, São Caetano, Belo Jardim, Pesqueira, Mimoso e Arcoverde”. Eu sempre perguntava a mesma coisa para ela, e ela sempre ia respondendo, cidade por cidade, com toda a paciência. Às vezes, tínhamos passado apenas uma, eu perguntava novamente e ela me dizia tudo de novo.
Lembro que uma vez, viajando com papai e mamãe, fiz a mesma pergunta. E um dos dois foi falando até chegar em Belo Jardim, Pesqueira e Arcoverde. Então eu questionei: “Arcoverde é depois de Pesqueira? E onde fica Mimoso?”. Aí mamãe me explicou que Mimoso não era considerada uma cidade, mas era um lugar bem pequeno. Então eu disse: “Mas vovó sempre conta com Mimoso”. E mamãe respondeu: “tudo bem, depois de Pesqueira, tem Mimoso e depois Arcoverde”.
Se não existisse Mimoso, pareceria que Arcoverde estava mais perto. Mas Mimoso era considerado por minha avó (já recentemente, soube que ela morou um tempo lá...), então eu considerava importante a existência da cidade também. Então, eu ficava muito contente quando via as luzes de Pesqueira, porque sabia que já estava perto.
Quando passava Pesqueira, ficava olhando a estrada. Perguntava a vovó: “mas vovó, cadê Mimoso? Cadê as casinhas da cidade?” E ela dizia: “não dá para ver, é muito pequenininha a cidade, mas ela está aí”.
Confesso que nunca vi Mimoso. Mas achava que devia ser um lugar lindo, feito casa de boneca, com tudo pequenininho. Nunca vi Mimoso. Mas acreditava em minha avó. Se ela conhecia, é porque existia.
Escrevendo agora, pensei que não sabemos do céu, de como ele é, ou de quão mimoso ele possa ser... Mas que se minha avó pode estar lá, então ele existe, não precisamos ver para acreditar. Mas ela deve conhecer...alma mimosa!
Nenhum comentário:
Postar um comentário