segunda-feira, 27 de junho de 2011

15. Os Quartos


Eu, Cláudia e Vovó, sempre ladeada
por nosso carinho!
           Durante alguns anos, nossa prima Cláudia morou conosco. Veio de Arcoverde, interior do Estado, para fazer faculdade em Recife. Cláudia dividia o quarto com vovó. Eram duas camas paralelas e muita conversa entre as duas. Algumas vezes, durante a tarde, eu dormia por lá. Às vezes deitava até com Cláudia mesmo, na cama dela. Era pouca avó para o tanto que essas netas queriam estar perto.
É assim até hoje...
            Nos anos 90, nossos pais construíram uma casa na praia, em Itamaracá. Lá, meus irmãos dividiam um quarto e, no outro, ficávamos eu e vovó. Estar com ela era garantia de uma noite segura e agradável. Às vezes, conversávamos antes de dormir, às vezes, eu chegava “na ponta dos pés” para não acordá-la. Mas sempre era surpreendida com um “fia, está vindo dormir agora?”. Como era bom pedir sua benção antes de deitar... E poder ter sido, por tantas noites, abençoada por Deus com a intercessão dela, com certeza, me tornou uma pessoa melhor.
            Às vezes, vovó roncava. E isso era motivo de brincadeiras na família. Seu ronco era daqueles de quem ressonava, ressonava...e de repente dava aquela “puxada” pesada, alta. Brincávamos, respeitosamente, que parecia um porquinho ronronando. Ela ria demais com essa referência e ficava admirada com sua “desenvoltura noturna”.
            No filme Gênio Indomável, o personagem de Robin Williams faz vários relatos comovidos sobre sua mulher, já falecida, evidenciando diversos momentos vividos com ela. O que mais me chamou a atenção, dentre eles, foi um em que ele contava como ela roncava e tinha problemas de flatulência, durante a noite. Neste momento, ele traz à tona sua esposa como “gente”, como ser humano que somos, com todas as nossas falhas, defeitos e pequenas coisas que a etiqueta social pode recriminar, mas que, integralmente, nos compõem. Quando penso no ronco de vovó, penso que é maravilhoso aproximá-la desta humanidade, tornar lúdico o que, para tantos, parece feio. Tornar cômico o que é cotidiano. Tornar nosso o que é tão democraticamente social. Ela roncava, eu a imitava, ela sorria, todos sorríamos. Isso também compõe a nossa história. Ou você imagina que trilha sonora de sucesso é apenas composta por melodia de doces acordes? Na saudade, a lembrança de um ronco pode se tornar a mais suave harmonia, creia.
            Acho que isso é encontrar poesia em nossa humanidade. Quando digo humanidade, reporto-me a tudo o que nos expressa, como já citei. Nossos defeitos, nossas falhas, nossas caras inchadas nas manhãs, nosso hálito matutino, nosso suor de trabalho... tudo somos nós. Nossas palavras mal ditas, nossos comentários infelizes, nossos erros e ofensas. Somos nós. Os opostos se ensinam a ser. Muitas vezes aprendemos a calar após gritos mal dados, arrependidos. Muitas vezes, aprendemos a gritar após silêncios sufocados, desejos omitidos. Tudo somos nós. Chega de condenarmos nossas potencialidades de aprendizado, chega de regrarmos tudo, chega de julgarmos o que é certo ou errado. Certo é o que faz bem, errado, o que maltrata, a nós ou aos outros. O resto é convenção!
            Depois deste discurso inflamado, posso contar que vovó chamava palavrão? Mas era apenas um palavrão. Havia um eleito, um escolhido para seus momentos de fúria (existiam?), de indignação. Ressoava como um desabafo, em suas horas mais irritadiças. Eram poucas, e por isso, pouco ouvíamos a sua expressão. Mas também transformamos a palavra e, acima de tudo, a forma como ela a dizia, em comédia familiar. Nem sei, ao certo, se vovó sabia disso. Até porque quando ela o falava, ficávamos “em choque”, calados, olhos arregalados, sem poder se entreolhar, pois era um perigo sorrir daquilo e ela interpretar que não a respeitássemos em seu momento particular. Ela dizia “BOSSSTA!”, com um S tão sibilado que talvez tenha sido este o maior motivo de nossa sátira. Não ao seu momento, não ao seu desabafo, mas à forma enfática que ela o expressava.
            Sabíamos, quando vovó dizia “bossta”, a coisa estava feia! Mas eram tão poucas as vezes que, quando ela o dizia, parecia que nos encontrávamos com um parente distante, que quase nunca aparecia. Era um acontecimento! Um evento! “Ei, Mama, vovó hoje disse bosssta”...”Bian, vovó disse bosssta hoje à tarde”... “Foi mesmo? Por quê?” E a conversa logo voltava ao tom respeitoso e preocupante do que poderia ter afligido a nossa avó.
            Mas o “bossta” de vovó ficou conhecido na família! Eugênio Leicht e Breno, genros de mamãe que entraram na família já mais recentemente, custavam a acreditar que vovó dissesse algo assim. Mas logo após o susto (natural, em quem conhece aquela doçurinha miúda e jamais imagina algo torpe assim saindo de seus lábios), a risada era inevitável. Acho que era isso que era engraçado. O contraste da imagem sublime de vovó com uma palavra tão forte e tão enfaticamente pronunciada. Acho que é isso que não podemos esquecer: de suas expressões humanas, aparentemente condenáveis, mas que encerram algo tão seu, tão referencial. Nenhum “bossta” era igual ao “bossta” de vovó! Mais uma vez, não era a palavra, não era o momento, não era a sátira... era ela. Tudo o que diz respeito a ela fazia, e faz (talvez agora muito mais!) diferença entre nós!

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