segunda-feira, 27 de junho de 2011

29. Queda Bem Humorada

            Dia desses, lembrando das quedas de vovó, recordei-me de uma que não foi tão tensa. Éramos pequenos, estávamos em mais uma de nossas viagens de férias em Arcoverde. Local: fazenda de Tia Selene e Toré. Cenário de muitas de minhas lembranças infantis. O terraço que rodeava a casa toda, limitando um “jardim” sem limites... Havia terra, muita terra e, ao longe, cercas que delimitavam o local. Mas cercas tão distantes que nossos olhos de criança pouco podiam avistar.
Ali fora, havia currais, celeiros e pastos. Lugares que se transformavam em verdadeira aventura visitar. Eu, com toda a minha ginga de menina de cidade grande, ficava toda por fora, querendo aprender, pegar nos bois, fugir das galinhas. Lembro de Judith ali, confortável e tranqüila com tudo do ambiente. Toda corajosa, me chamando: “vem Karla”, “coloca a mão na cabeça do boi”, “alisa a cabra aqui”... me orientando naquilo que eu achava tão surpreendente. Queria aprender, perder o medo, saber fazer aquilo tudo. A cada nova temporada de férias, sentia-me mais confiante e segura. Mas a sensação de aventura sempre era a mesma. Esta, permaneceu.
Na casa grande, eram quatro quartos bem confortáveis. O de tia Selene, uma suíte, ficava numa espécie de quina. Em sua frente, havia um pequeno corredor onde, ao final, era o quarto de Judith e, ao lado, um banheiro social. Vizinho à suíte, havia um quarto onde assistíamos televisão. Este, ficava próximo à cozinha, um dos locais mais espaçosos da casa. Tinha uma mesa grande, de madeira, de um lado e os aparatos de cozinha do outro. Mais adiante, podíamos ver uma sala enorme, com dois ambientes, onde havia uma mesa grande de jantar de um lado, e do outro lado, sofás, som e centro. No canto da sala da mesa grande de jantar tinha um outro quarto, o quarto de Silvinho.
A despensa era fora da casa, com suas latas de leite condensado que pareciam riquezas a serem alcançadas. Ir à despensa era explorar o território em busca deste tesouro. E não era um leite condensado comum. Não. O de lá, quando aberto, exibia um leite condensado denso, já quase um doce de leite cremoso. Era o calor que emanava no quartinho, ia cozendo as nossas riquezas comestíveis. Tornava tudo mais especial.
Lembro ainda do frio. Ui, todos os aposentos, em tempos frios pareciam ainda mais aconchegantes. Recordo de termos dormido em quase todos os quartos (exceto a suíte). Havia épocas que dormíamos no quarto de Silvinho, de Judith ou no quarto da televisão. De comum a todos eles? A escuridão da noite. Um breu tão grande que sequer víamos os dedos de nossa mão à frente de nosso rosto. Em todos eles, o aconchego da presença de vovó a me proteger, a me dizer que estava ali, do meu lado.
Pois bem, o episódio que segue ocorreu no quarto da televisão. Eram três camas postas paralelamente, uma delas era uma cama de campanha, daquelas de ferro que se montam abrindo ao meio. E a quarta cama era uma das que existia na fazenda, de madeira, tipo baú, colocada perpendicularmente às outras três.
Surama, a esta época usando o seu colete (para correção da coluna), já estava devidamente deitada, na cama do canto. Eu ajudava vovó a arrumar as outras camas. Não lembro agora quem seria a outra pessoa que dormiria conosco...talvez fosse Ilvinho...
Então vovó foi puxar a cama de campanha para armá-la bem direitinho. Eu de um lado (da parede) e vovó do outro (perto da cama baú). Quando ela começou a se afastar, abrindo a cama, o espaço estava curto e os calcanhares de vovó toparam na base da cama baú. Neste momento, vovó desequilibrou e caiu para trás, sentada. Tudo poderia ter sido mais tranqüilo (e muito menos engraçado) se simplesmente vovó permanecesse sentada na cama. Mas não. Ela foi afundando. Aliás, ela afundou tão rápido que, quando vi, só havia cabeça, pernas e braços visíveis de vovó. O resto estava enterrado num buraco da cama.
Vendo que vovó ria demais, se divertindo com a situação, eu também caí na gargalhada. Já era tarde e todos estavam deitados. Mas, de tanto rirmos, nem eu tinha força de levantar vovó (e ainda era muito pequena para isso, talvez uns 8, 9 anos...) e nem vovó conseguia, porque só fazia rir...
Surama, roboticamente, levantou o tronco e se mostrou preocupada, mandando eu parar de rir e ajudar vovó. Mas simplesmente, não conseguíamos! Depois, acho que passada a preocupação inicial da cena e vendo que tinha sido apenas um susto, Surama uniu-se a nós em risadas e questionamentos de como aquilo teria acontecido.
Os risos foram tantos que tia Selene, Toré, Judith e Silvinho foram até o nosso quarto. Chegando lá, viram aquela cena de vovó enterradinha no colchão, num buraco ao canto da cama. Só perninhas balançando e sorriso ecoando.
É engraçada a nossa memória. Tanto esta que me faz lembrar deste evento, após tanto tempo, como a memória que tive no momento que vovó caiu na cama. Automaticamente, lembrei de uma cena que havia visto à tarde, e que fazia todo o sentido. Mais cedo, brincando com Judith, passei pela cozinha e vi tia Selene fazendo um de seus trabalhos da escola. Ela sempre foi muito jeitosa com seus trabalhos escolares, cartazes, artes manuais... E neste dia a vi com uma tábua enorme, que fazia parte da estrutura da cama (do estrado), fazendo-a de régua para traçar uma linha em uma cartolina. Lembro que pensei: “eita, que massa, a madeira da cama é régua”. Pois é, a régua que não voltou para seu lugar, a régua ausente que desalinhou a segurança de vovó. Tia Selene não a havia posto de volta. Ficou o buraco na cama. O buraco que acolheu vovó em seu desequilíbrio momentâneo. O buraco que preencheu aquela noite de risos e, hoje, minha mente de recordações tão bacanas...

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