segunda-feira, 27 de junho de 2011

12. Saudades de Tio Sales

          Em família, sempre há a especulação e comentários de quem são os filhos preferidos. Não sou mãe ainda. Não sei se há uma preferência por alguns ou por um especificamente. Não tenho como responder isso... Como filha, sempre achei que houvesse e, claro, não  me sentia “a favorita”. “Claro” porque todo filho sempre acha que seus pais gostam mais dos outros. Ouço isso sempre! Hoje agradeço aos meus pais o amor sem medida, tão sem medida que pouco importa comparar entre os meus irmãos... É válido, é real, é presente, é nosso. E pronto!
            Como neta, adorava quando ouvia os comentários de que eu era a neta preferida de vovó. Não sei se era... Prefiro acreditar que sim. Não quero causar ciúmes em meus primos e irmãos (penso logo em Cláudia relutando...), mas acho que vovó tinha esse amor sem medida, para todos nós. Talvez porque eu estivesse mais próxima, diariamente ali. Proximidade e afinidade. Vamos trocar esses termos e não usar preferência, que fica tendencioso, não é mesmo?
            Mas ao escutar isso, eu me envaidecia, claro. Alguns diziam, como que para justificar ou tirar o foco e sentido maior da palavra “preferência”: “ah, é porque ela é a neta mais nova!”. E foi assim, durante muito tempo, até nascer Tainá. Quando ela nasceu, em 1987, deixei de ser a neta caçula, fiquei imaginando se isso afetaria algo em relação à vovó. Mas que nada, é como eu disse anteriormente. Vovó tinha esse amor sem medida e era tão grande que nos fazia amar a quem ela amava. Adoro minha prima Tainá!
Quanto aos filhos, ora ou outra, escutava que vovó tinha uma adoração por tio Sales. De novo, a justificativa paliativa: “é porque ele é o mais novo, o caçula”.
Fui dama de honra no casamento de tio Sales. Lembro do meu vestido branco com uma rendinha amarela. Lembro de lhe entregar as alianças, do padre me chamando para eu levá-las até o altar. Lembro como chorei quando derramei coca-cola e manchei meu vestido de princesa. Mamãe me consolou, dizendo que não tinha problema.
Então, o caçula de vovó foi morar na Bahia. Eita, como vovó sentia. Tudo então era Sales. A justificativa paliativa agora era reforçada: “não é que ele seja o preferido, é porque ele é o mais novo e o único que mora longe”. Tenho certeza de que tio Sales prefere acreditar que era o favorito mesmo.  Eu acreditaria. É bom criar nossas verdades quando elas nos fazem bem!
Então, um dia, lembro de tio Sales ter vindo visitar vovó. Não tenho certeza, mas acho que foi em alguma festa de final de ano. Mas logo depois daquele momento em família, tio Sales iria viajar de volta à Bahia. Quando ele se despediu de vovó e saiu da nossa casa da Imbiribeira, a festa continuou, mas não encontrei mais ela. Então percebi que ela tinha ido ao terraço e estava deitada na rede, sozinha.
Deitei do seu lado. Percebi que ela estava triste, meio chorosa. Na minha inocência de criança, pensei que, cantando, eu poderia ajudar, alegrando-a. Então comecei a cantar, encostada nela: “Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora”...
Meu Deus, vovó caiu num pranto que acho que, como criança, conheci ali o que era arrependimento. Comecei a chorar junto e pedir desculpas a vovó. Senti-me culpada, achando que eu tinha causado aquilo tudo. Falei tantas vezes: “desculpa, vovó, não canto mais, não chora não, por favor....” Choramos juntas e abraçadas.
Depois de um tempo, vovó me explicou que não tinha sido porque eu tinha cantado. Disse, inclusive (ô, alma grande!) que a música era muito bonita. Mas que era uma música que falava de saudade. E que ela sentia saudade porque seu filho mais novo morava muito longe, que ela não podia estar sempre com ele. Explicou-me como a saudade existe, porque as pessoas se gostam e estão longes umas das outras, mas que a gente chorava e depois passava.
Perdoem-me meus outros tios, pode ser que vovó tivesse saudades de tio Sales, que ele fosse o caçula ou qualquer outra coisa, mas, naquele momento eu aprendi que ele era o “preferido” de vovó! Não estou dizendo que era, estou dizendo que percebi assim, porque vi a emoção de vovó ao falar dele e do fato dele estar mais distante.

Hoje penso no que ela me falou sobre a saudade. Há meses, desde quando vovó se internou pela primeira vez, em agosto, tenho chorado essa saudade dela. Chegava em casa do trabalho, depois das 22hs, e Breno me recebia, eu aos prantos. Acho que Aldeia, por ser longe, permitia que eu passasse muito tempo dirigindo sozinha, lembrando das coisas de vovó. E elas sempre me emocionam. Ainda mais sabendo que finalizariam por aqui... Choro até dormir, choro até passar (ela disse que passa, não é? Eu acredito)... Até passar uma dor que é física também. Sinto um buraco no peito e lembro-me do seu ombro, sinto o seu vestido azul grosso, quase roxo, com risquinhos verdes suaves, que ela tanto usou. Tenho o ombro de Breno, marido amigo, companheiro, que me escuta contar minhas histórias com vovó, quase sem conseguir falar, em meio ao choro. Tenho a imagem dela tão presente. Tenho tanta vontade de ficar perto de tio Sales. Parece que assim, fico mais perto dela e do seu sentido de saudade. Aprendi, um dia, sobre a saudade, com o discurso de vovó. Hoje aprendo, na prática, com a sua ausência!!!

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