Aliás, lembro de papai e mamãe irem para Arcoverde, no final do ano, e depois que eles se preparavam para voltar, eu decidir ficar lá, com vovó. Lembro que sentia saudade dos dois, mas sempre que tinha vontade de chorar, ia para perto de vovó. Ela dizia: “chore, está com vontade, chore. Você quer voltar?” E eu a abraçava, chorava um pouquinho, às vezes ligava para casa, e depois me sentia segura novamente. “Não, vovó, não precisamos voltar, eu fico aqui com a senhora”.
Na hora de dormir, a saudade tende a apertar mais (tenho sentido tanto essa verdade nos últimos dias...). Ainda mais quando dormíamos na fazenda de tia Selene e Toré. Era muito tranqüilo por lá, muito silencioso. Um silêncio tão grande que fazia um barulho no ouvido. Um “huuuummmm” constante. E a escuridão? Lembro de ficar colocando minha mão na frente do rosto para ver se enxergava os dedos. E nada!
Então nessas horas, eu começava a fazer perguntas à vovó: “vovó, tá com sono? Vovó, vai dormir agora? Vovó, está vendo sua mão? Vovó, é um silêncio danado aqui, né?”. E ela ia respondendo: “um pouquinho”; “estou só aqui deitada”; “não consigo ver, é escuro”; “é silêncio porque estamos no meio do mato”...
Acho que ela, talvez com sono, talvez cansada, e percebendo que eu estava um pouco apreensiva, dizia: “feche os olhinhos, o sono está aí já, é só você fechar os olhos e esperar...”
Se eu continuasse com as perguntas “sem fim”, ela questionava: “quer vim um pouquinho para cá?”. Eu ia correndo. Deitava um pouco com ela, na cama em que ela estava deitada. Segurança total. Cheirinho de vovó. O sono chegava mais fácil perto dela. No outro dia, eu acordava na cama dela e ela na minha cama.
Lembrei disso há pouco tempo, na primeira vez que meu sobrinho Vinícius resolveu dormir aqui em casa, sozinho. Casa nova da tia, ele ficou animado e pediu aos pais para dormir conosco. Fabian e Andréa foram embora e ele decidiu ficar. Queria jogar de tudo, ver televisão, adiar a hora da dormida. Fomos para o quarto. Coloquei um colchão de casal do lado da minha cama com Breno. Vinícius puxou tanto assunto que nunca imaginei. Percebi que estava nervoso, apreensivo. Lembrei de vovó. Disse-lhe as mesmas frases já descritas. Primeiro a: “feche os olhinhos, o sono está aí já, é só você fechar os olhos e esperar...” Depois, por não ter sucesso, continuei: “quer que eu vá para aí, com você?” Ele disse: “tu que sabe, tia!” Eu SABIA que ele queria! Eu também já quis....
Vovó, eu e Vinny, em um dos meus aniversários. Não parece que ela está aprovando eu ter aprendido sua linda lição? Palmas para todos nós! |
Breno já estava dormindo há um tempo. Então eu desci da cama e fiquei alisando os cabelos de Vinny. Ele conversou ainda um pouco e logo, logo, adormeceu. Fiquei pensando em vovó, lembrando quando era comigo. Imaginando: não é que dá certo mesmo? Eu entendia exatamente o que Vinícius estava sentindo. Tanto quando estava “nervoso” como quando eu desci e fiquei com ele na cama até dormir. Eu sabia como era, eu tinha passado por isso. Fiquei feliz em ter meu sobrinho dormindo aqui em casa. Mais uma vez, fiquei feliz em parecer vovó. Em transmitir algo bom que ela transmitia para todos nós. Ela ensinou relacionamento, segurança, afeto.
Hoje, na faculdade de Psicologia, estudo o desenvolvimento humano. Autores como Bowlby, Wallon, Vygotsky vão evidenciar a importância do adulto no desenvolvimento da criança por intermédio do apego, da emoção, da mediação social. Elementos importantes ao desenvolvimento afetivo e moral dos pequenos, que auxilia no seu aprendizado, na sua autonomia, na construção da sua subjetividade como um adulto saudável e feliz.
Tenho certeza de que vovó Judith nunca ouviu falar de nenhum deles. Mas lá no íntimo, confesso que às vezes, me pergunto: será que eles não conheceram a minha avó?
Ela não teorizou, mas colocou em prática o que nunca estudou, nunca ouviu dizer cientificamente, nunca pesquisou. Por isso dizemos que ela é sábia, grande, humana. Doutora em AMOR, AFETO, CUIDADO, FORMAÇÃO HUMANA! Parabéns, vovó!
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