segunda-feira, 27 de junho de 2011

22. Os Sonhos

            Algo que considero uma dádiva, neste tempo, é a oportunidade de sonhar com vovó. Sonhei com ela, pelo menos, sete vezes nestes trinta dias que se passaram. Nos meus sonhos, posso conversar com ela, beijá-la, abraçá-la, como sempre fazia aqui. Creio que é um resgate da minha mente, para manter minha saúde, meu equilíbrio. Não se corta um laço assim...
            No meu primeiro sonho, conversávamos, eu, vovó, mamãe e Cláudia. Falávamos sobre um novo apartamento que Claudia tinha comprado e que vovó dizia ser “muito bom”, “que tinha gostado bastante”. Fragmentos do meu dia. Estamos procurando apartamento para morar... Espero, em sonho, possivelmente, a aprovação de vovó. Ela vestia seu vestido branco de bolinhas pequenas, azuis e amarelas. Tinha aquela carinha de sempre, atenciosa, querendo agradar. Estava entre nós, como sempre esteve, nos assuntos familiares. Bom sentir que podíamos conversar com ela.
            No segundo sonho, foi o único que a imagem de vovó era como quando ela estava no hospital, já debilitada, pequenininha. Ela, com a dificuldade que estava para falar, me pedia para chamar Maria. Ficava lhe questionando quem seria essa Maria e senti muito não poder ajudá-la. Ao acordar, chorando, fiquei pensando que poderiam ser suas filhas (afinal, são três Marias) ou quem sabe, a Nossa Senhora, a qual vovó sempre chamava em seus últimos anos.
            O terceiro sonho foi mais alegre: estávamos em uma rua do bairro, assistindo ao desfile da banda do colégio Boa Viagem. Cadeiras na calçada, eu, vovó e mais alguém que não lembro quem era. Vovó vestia seu vestido verde estampado com flores amarelas e, o mais interessante, era que calçava uma sandália preta minha, altíssima. Eu dizia a ela: “vó, como você está alta!” E ela me respondia: “pois é, é essa sandália aqui, mas ela é tão boazinha...” Seu aspecto era saudável, forte, bela. Uma alegria compartilhar esse momento com ela assim.
            No quarto sonho, estávamos no terraço lá de nossa casa da Imbiribeira (onde eu costumava assistir televisão com vovó). Eu, mamãe, Surama e ela. Conversávamos e ríamos. Não lembro o quê ou de quê. Mas era nosso convívio resgatado em sonho. E isso já me rendeu um dia mais tranqüilo...
            Os demais sonhos foram muito próximos do dia 14/12 (data do trigésimo dia de seu falecimento). No dia 10/12, uma quinta feira, voltei para casa do trabalho sentindo muita falta de vovó. Chorei muito, senti sua ausência em meu dia a dia como algo cruel. Questionei-me se saberia viver com isso a minha vida inteira. Adormeci com ajuda de um medicamento. Sonhei que vovó aparecia na mesa de jantar. Estávamos: eu, mamãe, tia Solange e Mércia juntas. Vovó surgia e agora, tínhamos consciência de que era uma “aparição”, pois sabíamos que ela já havia falecido. Mas ela vinha, fazia aquele jeito na boca, de um bico, apontando o seu lugar na mesa. Pedi a Mércia que deixasse livre o lugar de vovó; Mércia saiu e vovó sentou-se ali, onde tantas vezes compartilhou conosco nossas refeições. Eu pegava em sua mão, não acreditando em “seu retorno”, mas imensamente emocionada com a possibilidade de vê-la novamente. Ela falava alguma coisa para tia Solange, algo como que para ela se cuidar. E eu chorava tanto, que acordei... Mas agradeci a Deus a lembrança viva de vovó em meu sonho!
            Um dia depois, dia 11/12, sexta feira, sonhei novamente com vovó. Agora ela estava comigo e com Surama. Não me lembro do conteúdo do sonho, mas lembro que conversávamos e que, de repente, algo engraçado foi dito. Vovó gargalhava e, junto com ela, eu e Surama. Acordei de madrugada, com minha gargalhada ecoando no quarto. Ao encontro com a minha realidade, quis entristecer, mas aquela sensação de riso com vovó foi tão mágica que voltei a dormir sorrindo e passei o dia inteiro com uma sensação boa, de ter vivido algo saudável, tentando me lembrar especificamente dos motivos, sem sucesso. Mas os efeitos perduraram. Ainda agora, lembrando do sonho, esboço um sorriso nos lábios.
            E por fim, no dia 13/12, sonho com vovó “retornando”. Meus últimos sonhos já traziam essa consciência de sua partida e da possibilidade de estar com ela somente “em espírito” ou “em vidência”. Vovó aparecia e desaparecia. Mas quando vinha, era como se estivesse aqui, em carne e osso. Conversava, ria, comentava as coisas do nosso dia a dia. Eu sempre a beijava muito, a colocava perto de mim, a abraçando quase como se a pusesse no colo. Eu dizia a algumas pessoas, que não acreditavam. E lembro-me do meu telefone celular tocar e ser Lena na ligação. Eu dizia: “Lena, vovó está aqui. Voltou para nos visitar”. Lena não achava isso possível, então eu passava o telefone para vovó. E ela, com aquela sua voz doce, que tanto bem me faz ouvir, mesmo que seja em sonho, dizia: “Lena, eu estou aqui! Tudo bem com você? Quero que fique bem, viu? Deixe os problemas pra lá...” Lena chorava muito, se emocionava demais, dizia que ia correndo para lá, ver vovó. Mas aí vovó dormia. Mais ou menos como acontecia quando ela já estava se recuperando do enfarte. Ela falava conosco e de repente “apagava” dormindo, como se desconectando da realidade... Isso acontecia também em meu sonho, constantemente.
                    Acordei agradecendo a Deus mais uma noite junto a vovó! É mágico, é pleno. Posso senti-la, tocá-la, ouvi-la... É, verdadeiramente, uma benção! Peço a Deus que me permita esse “encontro” com vovó freqüentemente. Isso me apazigua a alma, me acalenta o espírito. Creio que Deus sabe que é muito cruel cortar totalmente uma convivência assim... Penso isso às vezes.
            Creio que vovó está perto, às vezes, penso senti-la, perceber sua presença. Mas não a posso ver, tocar, ouvir... Isso é muito ruim. Eu, que sempre fui aonde vovó estava, sinto não poder ir encontrá-la onde ela está agora. Então penso que o sonho me leva até ela, me conduz até onde, em vida, eu ainda não posso chegar. E o sonho mantém nosso contato, nossa convivência. Loucura minha? Loucura é pensar que ela não está mais aqui comigo... Isso sim enlouquece quem ama!

Nenhum comentário:

Postar um comentário