segunda-feira, 27 de junho de 2011

14. Cumplicidade

Vovó e eu, em 2005
Quando penso em vovó, me vem à mente a palavra cumplicidade. Não acho que se fôssemos contemporâneas eu teria a mesma sensação. Nossa cumplicidade advém mesmo dessa diferença de idade, dessa possibilidade de ensinar e aprender, de cuidar e ser cuidada, de amar e ser amada que sempre tivemos.
Um dia desses, entrando em meu condomínio, vi uma família reunida no terraço, com a televisão ligada. Lembrei de uma velha TV em preto e branco que tínhamos no terraço de nossa casa, conhecida como a “televisão de vovó”.
Vovó foi de uma época em que não existia eletricidade. Sua casa era iluminada por lampião. E por falar em lampião, um “parêntese”: minha avó é da época de Lampião, o Cangaceiro do Sertão. Adorava quando ela nos contava como ele pousou uma noite na fazenda de seu pai. “Vó, ele era perigoso?” “O povo dizia que sim, mas era educado, ficou por lá, com os seus homens. Pai não deixou a gente chegar muito perto. A gente ficava dentro de casa. No outro dia, foi servido o café e eles foram embora”. Fascinante, não?
Mas voltando ao lampião de gás, vovó conheceu a eletricidade como uma novidade! E depois, tudo o que ela trouxe à humanidade de facilidades. Assim, veio a televisão. Em nossa casa, chegou a TV em preto e branco, inicialmente. Depois, em 20 polegadas, uma televisão colorida. Esta, foi colocada na sala de jantar, era a preferida da família.
Porém vovó não se rendeu totalmente às cores e tamanho inovadores. Geralmente, ia assistir a seus programas preferidos, que podiam ser diferentes dos programas da família, lá no terraço, na TV pequenininha, em preto e branco. Acompanhei, muitas vezes, minha avó. Não gostava de vê-la lá fora, sozinha (na minha mente de criança, com a “pior” televisão). Assistia a alguns programas com ela. Fazia companhia. Nestes momentos, a TV não tinha muita importância, o companheirismo dava sentido ao meu programa doméstico, particular, com vovó. Hoje, as melhores imagens que tenho desta época passam em minha mente como em uma tela cristalina, como se fossem filmes relembrados. Fazem-me rir, fazem-me chorar...a personagem principal aparece triunfante, linda. Minha avozinha querida, tão brilhante, tão impactante nas cenas de nossas vidas. Agora, mais do que nunca, verdadeiramente, uma ESTRELA!

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