Com a indicação de transfusão de sangue, precisávamos ir ao HEMOPE, inicialmente, a cada dois meses, tempo este que foi ficando mais restrito e passando a ser contabilizado a cada novo mês. Pegávamos a requisição médica e íamos marcar no hospital a ida de vovó para a transfusão.
_ D. Judith, diga seu nome todo.
_ Judith de França Vidal.
_ E qual o tipo do seu sangue?
_ Meu sangue? É AB positivo _ dizia vovó com um sorriso de quem passa num teste importante.
Vai lembrar-se disso quem já esteve com vovó por lá... E tal “evento” mobilizou grande parte de nossa família. Inicialmente, eu ia com muito mais freqüência ao HEMOPE com vovó. Passávamos a tarde conversando. Ela não gostava de comer enquanto estava tomando o sangue, embora soubéssemos que era muito cansativo para ela, esperar por tanto tempo... então ficávamos ao seu lado, conversando, para enganar a passagem do tempo.
Às vezes vovó cochilava, ou fechava os olhos para o tempo passar. Levava sempre seu casaquinho, pois a sala era muito fria e o tempo lá dentro era extenso. Sempre havia outros pacientes e um ou outro puxava assunto com vovó. Ela também sorria e falava com as enfermeiras que, depois de um tempo, já a recebiam como a uma antiga conhecida.
Quando voltava para casa, ou em outros momentos não associados à sua ida, vovó reclamava um pouco de sua situação. Dizia que não imaginava que fosse passar por isso em sua vida, que estava sendo atendida em um hospital com tanta gente doente, coisas assim... Sempre interpretei esses desabafos de vovó como aqueles nossos momentos de vítima, quando o peso das vicissitudes da vida parece nos incomodar mais. Falamos como a reclamar atenção, como a questionar o nosso mérito nos acontecimentos, como a solicitar explicações que justifiquem nosso sofrimento ou a necessidade de fazermos algo que se pudéssemos optar, não faríamos.
Tentava conversar com vovó, mostrando-lhe o lado bom da situação. Ela era privilegiada, não tinha uma doença mais séria, não tinha necessidade de estar ali com tanta freqüência, estava sendo tratada no melhor lugar para seu caso... Algumas vezes tais argumentos funcionavam, ela concordava. Em outros momentos, era melhor deixá-la com seus lamentos. Pareciam ser necessários ao seu dia. Todos nós merecemos a liberdade de momentos assim. Mesmo que não nos sejam agradáveis, fazem parte de nós e do momento que vivemos. São nossos, devemos tratá-los como acharmos convenientes, conforme nosso humor. E vovó não agredia ninguém. Sua lamentação só nos atingia por querer vê-la melhor e não porque incomodava. Precisamos saber respeitar esses momentos dos outros, ainda mais quando não nos atingem diretamente, a não ser pela nossa emoção em evitar o inevitável: que a pessoa o viva como quer.
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