segunda-feira, 27 de junho de 2011

23. Os Sonhos Continuam....

           Estamos há cerca de um ano e meio do falecimento de vovó. E posso dizer, agradecida, que os sonhos continuam. Sonho com vovó frequentemente, quase semanalmente. Ela vem aos meus sonhos de várias maneiras: forte ou mais fraquinha, quando já na fase de sua maior debilitação... É interessante que sempre que sonho com ela assim, a coloco nos braços, como a uma criança frágil. É muito intenso.
            Ela surge em sonhos com temas comuns, cotidianos. Vem em momentos de alegria, de saudade, ou de minha maior fragilidade, me aconselha, me dá ânimo. Está sempre presente.
            Considero estes sonhos terapêuticos. Renovam-me. Apesar da saudade que trazem, exatamente porque reavivam a presença e imagem dela para mim, fazem isso de tão importante: não deixam que sua imagem se esvaia da minha memória nem que a sensação de tê-la por perto diminua... Considero isso uma benção de Deus. Não fico melancólica ou nostálgica (pelo menos não a maioria das vezes), sinto-me aliviada por “vê-la”, por sentir sua presença por perto, por parecer ter encontrado com ela mais uma vez.
            Recentemente, em um de meus momentos de certo desânimo, pelas circunstâncias da vida que sempre nos cercam, sonhei com vovó novamente. Eu estava dormindo e ela me aparecia no quarto. Sentava na cama e colocava minha cabeça em seu colo. Afagava meus cabelos e como sabendo de tudo o que se passava comigo, me dizia para ter paciência (“Paciência, fia”), para não desanimar, que tudo ia se resolver... Senti uma espécie de plenitude neste momento de acolhimento, de compreensão e, sobretudo, afeto. Lembro que, ainda em meu sonho, papai aparecia na porta do quarto e me chamava à atenção para uma televisão desligada, ao lado da cama. Nela, víamos a imagem de vários anjos rezando. Parecia que era essa oração angelical que viabilizava a presença de vovó ali... Perguntei a papai se ele a via. Ele respondia que não e saia do quarto, um pouco assustado. Mais adiante, eu contava esse episódio a mamãe, Surama, Fabian e outros familiares. Sempre me emocionava ao contar para cada um deles. Acordei com os olhos ainda em lágrimas pelas lembranças e sensações vividas.
            De volta à realidade, tudo passa por uma readaptação. A constatação de que tudo foi um sonho, a princípio, é um pouco triste. Mas ciente da impossibilidade momentânea de sua presença e retorno, compreendo que esta é a forma que Deus me permite estar em contato com a lembrança de minha avó, da maneira mais verdadeira (pois quando sonho tudo é muito real) que Ele pode proporcionar no momento. Agradeço. Sempre agradeço.
            Lembro da avó que tive, de sua importância para minha vida e formação. Lembro da dádiva de ter tido seu amor da forma que tive. E de tê-la amado da melhor maneira que pude. Lembro que tudo o que sonho é real mesmo, porque seria assim, se ela estivesse aqui comigo, em vida.
Depois dessa breve, breve mesmo, readaptação à realidade e à constatação novamente da ausência de vovó, meu dia se torna melhor. Sigo seus conselhos, sempre sábios, ainda que em sonhos. Acalmo minha alma, sinto uma felicidade genuína, sem que nada ao meu redor precisasse ser, efetivamente, modificado. Sinto uma mudança de atitude, uma mudança de perspectiva. É terapêutico, me renova, me fortifica, me enobrece. Tento ser alguém melhor para, como ela, ser querida por tantos. E, aproximando-me do seu exemplo, sentir-me mais próxima a ela. Tento ser alguém melhor, para que ela se orgulhe de mim, onde quer que ela esteja. Tento ser alguém melhor, sobretudo, para merecer ter mais sonhos com ela!

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