Festa! Sim, toda a família, em 2002, era unânime na decisão de celebrar a vida e os 90 anos de Dona Judith. Ela, claro, acatou tudo. Missa pela manhã, encontro com familiares durante a tarde, para a grande festa, à noite, em nossa granja de Aldeia. Um evento e tanto.
Foi tudo muito bem feito, rodeado de uma atmosfera muito saudável entre todos nós. Vovó gostava de celebrar, de ver as pessoas queridas. Umas dessas pessoas, que estava sempre presente, era sua sobrinha Edna, uma figura constante em seus aniversários. Principalmente depois desse, de 90 anos, não me lembro de um ano sequer que Edna não tivesse ido lá em casa visitar vovó. E como vovó gostava dessa visita! Com o tempo se preparava e estranhava se Edna demorava. As duas riam muito, conversavam sobre o tempo em Buíque. Para vovó, era uma retomada de momentos de sua vida tão bons e significativos. Edna era a presença viva e o resgate atual de tudo aquilo. Creio que vovó se renovava nestes encontros. Mas voltemos ao seu aniversário de 90 anos...
Eram tantas as pessoas ali na granja, gente que eu nunca tinha visto em toda a minha vida. Todos querendo tirar fotos com vovó, conversar com ela. Creio que nesse dia eu fui ter a dimensão maior de quem era vovó “antes de mim”... Perdoem-me o foco centralizado, mas esses escritos contam a história de minha referência de vida em relação à vovó. Não é que queira só falar de mim, mas aqui, só posso falar do que sei, sobre mim e sobre ela. Pois bem, surpreendi-me com tantas mesas e mesas de parentes distantes, amigos e conhecidos de vovó, que tiveram com ela uma referência de vida também, além daquela que eu tinha conhecimento. Senti-me pequena e, ao mesmo tempo, significante. Pequena, porque não havia participado de grande parte daqueles 90 anos ali comemorados. Não tinha visto tudo, não tinha estado em todos os lugares (por isso às vezes, escutava com tanto entusiasmo os relatos de Edna; queria entender, fazer parte, ainda que como ouvinte, daquela vivência toda). Mas sentia-me, como disse, também significante, pois tinha um sentido na vida de vovó que, sabia, era representativo. Eu era sua neta “da diária”, da rotina, do dormir e acordar, do cuidar e ser cuidada, do comer junto, do conversar à tarde, de pedir a benção antes de dormir... do dia a dia de seus últimos 30 anos, pelo menos. Contentava-me com este terço de vida de tanta qualidade!
As pessoas nos viam, falavam coisas sobre vovó, queriam também se aproximar de nós, como referência atual da história desta vida. Foi um dia e tanto! Vovó, em alguns momentos, parecia estar tão cansada que parecia ausente. Sem entender muito bem tantas informações ao mesmo tempo. Mas era tão lúcida minha avó, que sei, suplantou o cansaço para ser gentil. Ouviu tantos discursos. Eu e Surama, como sempre, começamos falando e terminamos chorando... Nem lembro mesmo se conseguimos terminar de falar! A emoção era grande demais no momento de expressar, em palavras, o que tínhamos a dizer. E não fomos as únicas. Eu e Surama, como sempre. Mas muitos que não são de chorar estavam ali, sem conseguir falar de seus sentimentos. Lembro de Bian, Pedro, papai... Filho a filho. Belas palavras, muitos abraços...e vovó sempre sorrindo. Calmamente, ternamente. Sua humildade em receber tantas homenagens era igualmente comovente. Ô criatura amada!
Depois de seus 90 anos, graças a Deus, festejamos mais sete. Não com tanta pompa e circunstância como este. Mas com mais amor, mais agradecimento a cada ano que passava e que Deus nos permitia compartilhar nossas vidas com vovó. Cada ano era uma nova dádiva. Acho que comemorávamos sua vida e nossa alegria em tê-la, bem, ainda conosco. Todos os familiares se reuniam. Em nossa casa da Imbiribeira, o dia 25 de maio se tornou agenda prioritária. As fotos também eram prioridade. Fazia questão de eu mesma reunir, um a um dos presentes, para tirar fotos com vovó. Guardo-as todas. Distribuímos essas fotos depois que ela se foi, entre todos nós. Estávamos todos lá. Nem sempre com discursos proferidos ou expressões externas de nosso contentamento. Mas bastava nos olhar nos olhos para reconhecer, implicitamente, aqueles sentimentos presentes em todos nós: o agradecimento e a alegria de, por mais um ano, estarmos juntos ali, com o nobre motivo de celebrar aquela vida tão querida e importante para todos nós!
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