Vovó nos deixou num dia de sábado. Era 14 de novembro de 2009. Passei a semana com uma turma de MBA, dando aulas intensivas das 18h00min às 22h00min, durante toda a semana. Para conseguir fazer isso, não visitei vovó no hospital nem na segunda nem na terça. Quarta-feira fui vê-la, porque haviam me dito que ela estava muito bem. Mas não foi isso que encontrei. Vi vovó na UTI, muito caidinha. Fiquei mal. Muito mal. Sempre chegava às aulas com o rosto inchado e, ao final do curso, brinquei com meus alunos que se um dia me vissem na rua perceberiam que eu não era muito diferente do que aquele rosto inchado. Pois sempre me viram assim, desde o primeiro dia de aula.
Voltei a ver vovó na sexta. Na discussão familiar sobre se ela faria ou não uma hemodiálise. Procedimento paliativo, mas que não iria modificar a sua situação clínica, nada boa ao momento. Estavam todos na casa de mamãe e de lá fomos ao hospital. No meio daquela confusão toda, daquele “faz-não-faz” entre os familiares, entre as opiniões divergentes de dois médicos simpáticos, tudo ficou claro para mim. Para não guardar a sensação sozinha, chamei Surama e lhe disse: “vovó vai decidir não fazer”. Meu coração já sabia...
Surama, olhos meio arregalados, ainda esboçou uma reação de um “como assim?”. E eu, serena, quase um tom de sorriso nos lábios, com a força que só os anjos puderam me dar, repeti que achava que vovó iria decidir não fazer, porque ela iria nos deixar antes...
Queria entrar em detalhes para não deixar que o tempo leve esses últimos momentos de vovó de minha mente. Mas são muito dolorosos. Queria deixar aqui registrados datas e acontecimentos para que eu pudesse sempre tê-los como referência desse momento de minha vida. Como seu primeiro infarto no dia 19/08; ou eu correndo com ela no carro, por Boa Viagem, enlouquecida, tentando chegar ao hospital, num engarrafamento brutal; experiência que me fez tremer e chorar só de passar naquele caminho novamente, em outro dia... Mas são dolorosos demais para serem descritos aqui... A riqueza de detalhes e a dor são tão grandes em minha mente e coração que fico até questionando se um dia realmente terei capacidade de esquecer.
Mas para abreviar esse capítulo doído, vou dizer apenas que no sábado fui ver vovó. Sussurrei ao seu ouvido palavras bonitas de paz, de amor. Essas, guardarei só para mim, pois sei, nunca as esquecerei e não quero julgamentos ou avaliações sobre o que disse... O que interessa é que ela partiu.
À noite, fomos chamados ao hospital, vovó tinha piorado. Fomos, quase todos os familiares, para lá. Fabian estava trabalhando e Surama, sem babá, tinha ficado com Sofia, ainda muito bebê.
Choramos, nos abraçamos, sentimos uma dor que só quem passa por isso sabe não descrever, mas reconhecer. Choramos por nós. Por nosso sofrimento. Pela vida sem vovó. Por ela, agradecemos. Não era mais a vida que ela queria. Não daquele jeito. Não fazendo hemodiálise para sanar um quadro cuja tendência era piorar. Vovó era mais do que isso. Penso sempre nisso quando quero me entristecer por sua ausência. Aliás, meu luto começou mesmo em agosto. Quando já não via mais aquela vovó entre nós. Seus momentos de ausência, seus momentos de fragilidade, quase sempre dormindo e pouco falando ou reconhecendo os seus, já não era a minha avó. Muitas vezes voltei para casa chorando, já sentindo a sua falta. Deus deu-nos tempo para tentar aceitar melhor. Criou condições para que, em alguns momentos, até desejássemos que tudo finalizasse. Sinto pelos que não crêem em Deus e em Seus desígnios. Fico imaginando como lidam com essa dor sem crer que tudo é divinamente preparado. Não há coincidências ou castigos nas nossas histórias. Há mérito e conseqüências. E vovó nos provou o quanto merecia uma vida melhor!!!
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