segunda-feira, 27 de junho de 2011

28. O Almoço com os Filhos

            Depois do seu aniversário de 90 anos, que eu me lembre, surgiu um novo ritual familiar. Sempre nos reuníamos, à noite, para celebrar os parabéns a vovó. Entretanto, durante o dia, havia um evento nuclear: o almoço de vovó com seus seis filhos.
            Lembro que iam ao Parraxaxá e outros restaurantes juntos. Sempre se reuniam com este intento. Era o momento deles. De colocar a conversa em dia, de passear com vovó, de comemorar ali, na base da família. Tia Selene e Tia Solange vinham de Arcoverde, o que, por si só, já se constituía em um evento para vovó. Tio Silvio reaparecia, geralmente, após um bom tempo sem tê-la visto, o que, para ela, sempre era uma grande alegria. Mamãe, tio Sales e tio Solon completavam esse momento tão especial.
            Aí já viu, dia de aniversário, vovó que geralmente acordava cedo, começava com as preocupações em se arrumar. Tomar seu banho, escolher e separar a sua roupa. Vestir-se, pintar-se. Perguntar se estava bem. Colocar um colar, uma pulseira. Não tinha as orelhas furadas para usar brincos. Demos a ela alguns de pressão, mas como quem usa sabe, chega uma hora que eles incomodam demais. Apertam os lóbulos da orelha e depois, parecem apertar nosso juízo. Às vezes, vovó ainda tentava. E vou confessar uma coisa: apesar de tudo, achava vovó mais bonita sem tantos aparatos.  Olho para as fotos de meu casamento e, vendo vovó toda arrumada, pintada, “escovada”, não encontro, de cara, minha avozinha. Só mais adiante, foco fixo nos seus olhinhos, dá para ver sua real beleza. A simplicidade que a caracteriza.
            Mas enfim, ela gostava de se ajeitar. Com antecedência, ficava aguardando a chegada do filho que ia levá-la. Dividiam-se em dois carros, pois todos juntos, não dava para ir. Eram sete ao todo. Foram três Marias e três Josés que minha avó colocou no mundo. Parecia até que ela sabia que um almoço animado se faz com mais de cinco pessoas... Ficava imaginando quais seriam as suas conversas. Seriam lembranças de suas vidas partilhadas? Seriam memórias infantis que eram relembradas? Sempre tive essa curiosidade e, é engraçado, pois nunca questionei isso nem a mamãe nem a tio algum. Muito menos a vovó, com quem sempre conversava e perguntava o que havia passado. Acho que via esse momento como privado, sei lá. Um momento muito deles, muito próprio. Podia ser algo até comum, corriqueiro. Mas eu achava muito especial.
E para vovó? Sua satisfação era visível. E apesar de demonstrar certo cansaço, quando chegava, sempre elogiava a comida, o lugar, o evento. Eu achava o máximo esse momento familiar... Vovó e suas crianças. A cada ano, talvez mais grisalhos todos, filhos-pais, filhos-avós...mas as eternas crianças de vovó, os “para sempre” filhos-filhos.
            Algumas pessoas, especialistas (médicos, terapeutas, dentistas...) ou não (gente da vida comum), comentavam que vovó era “nova e saudável” por não haver tido grandes tristezas na vida, como a morte de um filho, por exemplo. Sempre citavam esse fato como um evento que poderia ter desestruturado sua sanidade ou sua saúde física. “A dor sem nome”. A dor de quem sente revertido o curso natural da vida, no qual os filhos vêem partir primeiro os seus pais... Vovó, realmente, felizmente, não a experimentou. Viu seus pais partirem, muitos de seus tios, seu marido, muitos de seus irmãos...mas nunca um filho. Não sei se se mensuram essas dores. A perda é sempre muito difícil.
Eu olhava para vovó e a achava uma guerreira. Via-a em nosso núcleo familiar, mas ficava me questionando o que ela sentia em relação ao dela, de sua origem. Quando algum irmão de vovó partia, eu particularmente, ficava impressionada com a sua serenidade. Ela sofria sim, chorava. Mas logo adiante a víamos com tranqüilidade, a dizer que “assim é a vida”, que temos que nos conformar, que é a vontade de Deus. Ficava olhando para vovó e me questionando intimamente se o tempo conseguia essa façanha também. Ainda hoje, um dos meus maiores medos é ver morrer os meus amados. Medo que, inicialmente, vovó tem me ensinado a lidar. Até hoje, mesmo em sua partida, ela continua me ensinando coisas fundamentais. Mas olhava para ela e não entendia ou não concebia quanta calma, tanta lucidez, tanta serenidade.
            Não sei responder, nem imaginar se ela as teria mantido, caso houvesse “perdido” algum de seus filhos. Realmente não sei. Nem sei também se sua lucidez, saúde e mansidão se davam por este motivo. Mas sei que Deus foi, novamente, imensamente generoso com vovó. Ela partiu rodeada por seus filhos, em oração. E apenas onze dias depois de sua partida, o seu primeiro filho homem, tio Silvio, foi ao seu encontro. Ela pode, não apenas não vê-lo partir, como também recebê-lo em outra dimensão, junto aos anjos do céu.
            Não, nem sempre. Nós não entendemos os desígnios da vida, nem as propostas de Deus para nossas vidas. Mas tem momentos que devemos admitir nossa ignorância e insignificância diante de Sua sabedoria. E assim, aceitar o que Ele propõe para nossa existência e aos de quem amamos. Talvez essa confiança e conseqüente aceitação é o que nos torne mais serenos. Talvez ela venha com o tempo, com a maturidade, com a vivência... Talvez seja isso o que vovó tenha alcançado ao longo dos anos, que a fez manter sua serenidade e lucidez. Não sei, talvez... Esses pensamentos ainda me rondam com incerteza e admiração.

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