segunda-feira, 27 de junho de 2011

11. O Lanche da Tarde


Uma de nossas refeições, em casa. 1988/1989

            Gosto de comer. Adoro doces. Brinco dizendo que vovó me cevou. Também, pudera, como eu não era muito adepta a comer de manhã, ela começou a encontrar outras estratégias. Seus melhores amigos? Leite condensado, Nescau, farinha láctea, leite ninho e banana machucada. Hoje, depois do conhecimento de todas as dietas que já fiz, resumo essa mistura como “bomba calórica”.
            Ah, mas ali era bomba delícia de amor. Chegávamos do colégio na hora do almoço. Ficavam lá em casa Rodrigo e Ilvinho, meus primos, da mesma idade que eu. Brincávamos o dia todo até chegar à noite e eles irem embora. Então vovó cuidava de todas as crianças que estavam por lá.
             Três horas da tarde. Pára tudo. Hora do lanche. Vovó, geralmente, tirava um cochilo depois do almoço. Quando levantava, ia preparar alguma coisa para comermos. Quando era brigadeiro, parecia que era dia de festa. Mas ela não enrolava. Entregava uma colher de sopa a cada um, cheia de chocolate e recomendando para ter cuidado, pois podia ainda estar quente. O brigadeiro de vovó era especial. Tinha umas bolinhas crocantes no meio. Coisa que Surama até hoje adora e referencia. Era o sequinho da panela, que ela deixava formar para ficar mais gostoso!
   Então, fosse o que fosse, ela chamava de lá de dentro e tínhamos que ir. Era a hora do lanche, três horas da tarde. “Depois vocês brincam, agora é hora de se alimentar”. Uma delícia. Um ritual. Uma lembrança com cheiro e com sabor. Nossa mente é mesmo uma coisa incrível! Consigo sentir tudo de novo, impressionante...
           
            Mesmo depois de adulta, continuamos, eu e vovó, com o ritual. Mas ele, gradativamente, mudou de horário. Depois de meus trabalhos, que me faziam sair no período da tarde, depois mesmo da saída de Fabian e Surama de casa, quando casados, fomos adequando nossa rotina. A presença minha e de vovó, sempre juntas em casa, foi facilitando esse novo hábito.
                Comecei a ensinar nas faculdades em 2000. De lá para cá, habituei-me a comer antes de dar aula, já que entro às 18:30hs, 19:00hs em sala e, muitas vezes, só saio depois das 22:00hs. Vovó me acompanhava nos meus horários. Sempre me acompanhou quando pôde. Então, naturalmente, começou-se a se instituir um novo horário. Agora o nosso lanche da tarde ocorria às 17hs, cinco da tarde, religiosamente!
            Quando ia caindo a tarde, pãozinho assado e café para vovó (ou leite com arroz, que era outra preferência dela) e eu comia qualquer coisa (bolacha, fruta, refrigerante). Era nosso ritual. Conversávamos, comíamos. Era, como sempre, muito bom. Muitas vezes, cheguei atrasada ao trabalho porque permanecia comendo e conversando com ela.

            Nestes dias mais recentes, emocionei-me novamente com vovó. Depois do seu enfarte, dia 19 de agosto, ela foi operada e voltou para casa. Voltou fraquinha, voltou um pouco ausente. Não se alimentava bem, dormia muito. Abria os olhos de vez em quando, falava alguma coisa e dormia novamente. Era uma luta fazê-la responder, comer ou querer sair da cama. Já tínhamos enfermeira/cuidadora em casa e elas sempre me pediam: “Karla, vem cá falar com tua avó, para ver se ela se levanta”. Eu sentia que eu era o “argumento provável” de convencimento para vovó. E, na maioria das vezes, quando eu pedia e chamava, ela atendia. Quando isso não acontecia, eu deixava a casa de mamãe arrasada, pois sabia que vovó não estava muito bem. Não por mim, por ela não ter atendido um pedido que era meu; mas porque atender pedidos era o que vovó fazia, ela sempre queria agradar...
            Então, em um desses dias, uma de suas cuidadoras, acho que foi Walkíquia, disse a vovó: “vó, abre o olho, olha Karla aqui! Vai lanchar com ela?” “Olha ela aí, do seu lado”. Vovó, de olhos fechados, sem reação. Então eu disse: “vó, vamos lanchar comigo, vó?” E ela, de repente, respondeu: “Vamos, já são cinco horas?” Abriu e fechou os olhos rapidamente, parecia um reflexo instintivo. Ainda bem que ela estava com os olhos fechados, logo depois. Só assim ela não viu que eu caí num choro danado e saí de seu quarto emocionada, sabendo que, embora ela estivesse ausente, na maior parte do tempo, coisas significativas de nós duas ainda estavam registradas em sua mente, dentro daquela sua cabecinha branca que tanto beijei.

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