terça-feira, 28 de junho de 2011

32. Ilvinho deixa sua mensagem...


Tive contato com o livro ontem (domingo 26/06/11) às 05:30h quando me arrumava para voltar ao Recife, depois de mais um São João inesquecível ao lado de pessoas que tanto amo, mas que não sei expressar.

Confesso-te que, naquele momento, não consegui ler nem mesmo a contracapa, pois fui tomado por uma emoção que precisei sair da casa de Mércia para que não me vissem chorando.

Ao chegar a Recife pedi a Sheyla para ficar com o livro, pois iria lê-lo rapidamente já que havia terminado outro durante a estada em Arcoverde. Ledo engano, durante a tarde tentei novamente folhear suas memórias, mas não me contive novamente.
 

Somente hoje consegui iniciar e concluir a leitura e fiquei encantado com suas palavras, como elas nos fazem relembrar momentos que foram colocados de lado pela rotina diária.


Ilvinho, Rodrigo, Karla e Surama,
Rua Zeferino Pinho, ainda sem asfalto. Brincamos muito aí...

Lembro vagamente de quando vocês moravam no Ipsep, pois morei lá perto e ia andando pra lá. As maiores lembranças são da casa da Imbiribeira, das tardes que passávamos brincando após voltar do Colégio Santa Bárbara, inclusive da vez que o pastor alemão se soltou e nós ficamos pendurados no portão da garagem até vovó prender ele novamente, parece que o nome dele era "Jow". Lembro ainda de um Fiat 147 que tia Sônia nos levou uma vez para praia, de um corcel que tio Geraldo tinha, papai na época tinha um Passat amarelo "neutrox". Lembro do homem que vendia quebra-queixo durante a tarde, da geladeira que tinha um bebedouro embutido, de tio Geraldo fazendo a barba com um barbeador elétrico (achava aquilo o máximo e sonhava fazer a barba um dia usando um daqueles, mas confesso que ainda não tive coragem de comprar um), e uma particularidade que me veio à cabeça agora de que Surama dormia com as pernas cruzadas; agora os bolinhos na hora do almoço eram o que havia de melhor na face da terra.

Não tenho muitas recordações de ir para Arcoverde de ônibus com vovó, mas lembro bem de irmos uma vez com Cláudia para a rodoviária antiga e de nós estarmos na escada rolante com Cláudia bem cuidadosa com a gente. Lembro mesmo é das viagens na caminhonete de tio Geraldo, aquela carroceria tem muita história. Lembro da fazenda de Toré e tia Selene, lá aprendi a atirar com Silvinho e tinha o cabrito que ele criava; tinha o papagaio que cantava "acorda Maria Bonita, levanta e vem fazer o caféééééé..."; de quando desligavam as luzes na virada do ano; lembro do colete que Surama usava, mas não me recordo do episódio de vovó cair no buraco da cama, acho que não era eu, como poderia me esquecer de um episódio desses; e foi atrás da cisterna da fazenda que dei meu primeiro beijo numa prima ou amiga de Ditinha, não me recordo bem o nome dela, mas sei que era o mesmo nome de uma marca de margarina da época. Foi incrível como narrei para Melissa, na viagem de ida, toda ladainha das cidades (Vitória, Gravatá, Bezerros, ..., inclusive Mimoso) quando ela me perguntou se faltava muito para chegar, não sei se aprendi com vovó ou apenas copie de vocês o enredo. Lembro da casa perto da estação de trem, pois Silvinho tinha o disco de Michael Jackson (thriller), era um sucesso. E da outra casa bem grande que tinha os Filas Brasileiros.

Da casa de tia Solange lembro do relógio "cuco"; que tinha uns amigos de Mércia que eram caminhoneiros e que faziam transporte de combustível para Arcoverde, eles gostavam de falar sobre assombrações e apesar de fingir que nem ligava, eu morria de medo, não gostava nem de passar na frente das funerárias que tinham na rua que levava para o Bandeirantes, muitas vezes eu convencia Mércia a nos levar pela rua de trás. Lembro que Júnior namorava uma “moça” lá perto do hospital onde Priscila nasceu e Júnior pegou um monte de babosa para passar no cabelo durante o banho. Aprendi com Júnior a fazer ovo frito na margarina e depois Surama me ensinou a fazer no óleo, isso já foi na casa de Itamaracá. Júnior e Fabian não se entendiam muito bem, mas sempre estavam juntos.

Esqueci de perguntar a Silvinho sobre as máquinas de futebol que tinham no parque, era como se fosse "totó", mas tinha apenas uma manivela para movimentar o goleiro e outra para girar os jogadores, nem lembro o nome; tinha a roda gigante e o show de Roberto Carlos que passava todo ano.

Convivi um tempo com Rodrigo e Sandro, onde eles tinham um jogo que ligava atrás da televisão e era tipo paredão; foi lá também que aprendi a comer bolacha cream-craker com doce de goiaba no lanche.

Não tive muito contato com tio Sales, pois este sempre morou longe, só ouvia falar dele, mas nunca o via.

O aniversário de 90 anos eu não podia perder por nada, troquei o plantão na clínica e fui pra festa, nunca tinha visto tanta gente junta, mas foi muito emocionante poder participar daquele momento.

 Sei que fiquei ausente durante muito tempo, mas estou tentando resgatar esses laços, vejo hoje que a família é a unidade mais importante na vida do cidadão e que inconscientemente absorvi valores passados por meus familiares que carrego até hoje. Eu estava atônito na casa de tia Selene, perguntando a Samantha o nome dos “pirralhas” e filhos de quem eles eram, é muita gente. E saber que tudo isso começou com uma simples “senhorinha” de biotipo franzino e palavras doces.
Ilvinho e eu, não sei onde nem quando... "só sei que foi assim".


Não quero que Karlinha fique convencida com minhas palavras, mas como ela já narrou que era a neta preferida de voinha, tenho que confessar que ela é minha prima preferida, também não sei explicar por que, “só sei que foi assim”.

Um beijo no coração de todos.
Ilvio Vidal




















segunda-feira, 27 de junho de 2011

31. D. Judith Partiu... por tio Sales

E nos deixou um exemplo de vida. Foram 97 anos e meio de dedicação total a todos os seus filhos, netos, bisnetos, genros, noras, demais familiares e tantos amigos. Sempre serviu bem a todos.
Nunca a vi reclamando ou falando mal de alguém. Se ferida, suportou sozinha suas aflições e sempre perdoou a todos. Em alguns momentos, para ratificar sua enorme paciência para com as adversidades, sua filha Sônia a chamava de Jó.
Sua pequena estatura física poderia esconder uma aparente fragilidade, logo dissipada após um primeiro contato. Foi nossa líder solitária. Deu-nos exemplos de humildade e perseverança, lutando contra tantas adversidades ao longo de sua vida. Após a partida de nosso pai, Pedro, lá atrás, em 1967, assumiu sozinha todas as responsabilidades pela família França Vidal.
Num período de maior necessidade, para conseguir alguns poucos trocados, vendíamos coco verde de um pé em nosso quintal e, também, jornais velhos. Dava para comprar o pão e leite do dia. Foi uma grande lição de luta e grandeza.
Até o final de sua vida terrena, Deus a preservou de doenças, talvez como forma de ajudá-la a servir melhor a todos nós. Próximo ao final de quase cem anos de vida, como resultado de fadiga biológica, sua saúde declinou e a abateu fisicamente. Mas, em sua sabedoria maior, Deus nos proporcionou momentos inesquecíveis de novos aprendizados com D. Judith. Cada um de nós tem seus e peço que nos contem (vamos construir uma rede internet).
Um dia, ao visitá-la, ela pediu-me para não deixar de vir sempre àquela casa. Entendi seu pedido como para que não deixasse de visitar sempre a todos aqueles que formam a nossa família. Repasso este pedido de D. Judith a todos. Aquele já foi um primeiro momento de despedida.
Principalmente nestes últimos anos de sua vida, notei que D. Judith tinha preparado outros auxiliares para continuar a sua missão de nos ensinar mais sobre a vida. Aprendi muito com Sônia, Solange, Selene, Solon e Sílvio, cada um a seu modo diferente de se comportar neste período. Minha esposa Nenê e meus filhos, Diogo e Tainá, me deram lições de muito amor e dedicação. Não esqueço que D. Judith sempre perguntava como estavam Amanda (a “menininha”), Sandra e Paulo. Me emocionei com Fabian e Pedrinho ao vê-los chorar junto a D. Judith. Aprendi também, com Karla e Surama, sempre presentes em todos os momentos. Aprendi também com Breno, Andréa e Eugênio, por seu amor e atenção com D. Judith. Com Geraldo, por considerá-la como sua segunda mãe. Solange, antes a mais emotiva, mostrou determinação por ter sido a única dos filhos a querer ver D. Judith em seus momentos derradeiros no leito da UTI. Certo dia, D. Judith pediu-me para levá-la à casa de Júnior e Roseneide para conhecer a nova bisneta, Ana Clara. Aprendi muito com Mércia, por sua espiritualidade e emoção para servir. Cláudia, Pedro, Pedrinho e Priscilla também me ensinaram sobre o amor a D. Judith. Um dia entenderemos como Pedro foi levado à UTI do hospital na noite de sua partida. O “porque” já sabemos: foi para permitir que parte de nossa família pudesse estar junta naquele momento.
Com Solon, Lena, Rodrigo, Sandro e Lali, aprendi pela emoção e disponibilidade em servir, juntamente com Tati e Mônica. Selene, Toré, Silvinho, Judith e Jeane sempre formaram a segunda casa de D. Judith, sempre aberta quando de suas visitas a Arcoverde. Com Sílvio, aprendi pela disponibilidade para ajudar, junto com Ilza, Ilvinho, Sheyla e Samantha.
Enfim, acredito que D. Judith deixou uma boa equipe para continuar a repassar seus ensinamentos de vida, sem esquecer que Vitinho, Vinícius, Maria Alice, Sabrina, Felipe, Sofia, Netinho, Anna Luíza, Giovanna, Camila e Ana Clara estarão aí firmes pra continuar a redistribuir o amor recebido de D. Judith.
Acredito que este foi o seu maior desejo: o de ter formado um grande família. E ela conseguiu. Agora, cabe a cada um de nós preservarmos esta conquista.
Apenas nos piores momentos de dor, incluindo as dores renais e de um infarto, D. Judith reclamou, implorando a Deus para cessar tanto sofrimento, que a chamou para perto de Si, poupando-a de mais aflições. Sem sabermos, no momento exato de sua partida, estávamos todos juntos na sala de espera da UTI do hospital, de mãos dadas, orando a Deus por D. Judith. Logo após a oração, chamaram Diogo, que logo em seguida retornou com o sinal de sua passagem para uma nova vida. Apesar da tristeza em vê-la partir, só temos a agradecer a Deus por nos ter dado a chance de conviver com D. Judith. Para todos que com ela conviveram, D. Judith foi uma verdadeira dádiva de Deus, que nunca mais será esquecida.
Minha mãe partiu. Nossa mãe Judith partiu. D. Judith partiu.
Acredito que, a partir de agora, ela já está ajudando a todos nós, e a quem mais necessite, como um anjo de Deus, ao seu lado, eternamente.
Recife, 14 de novembro de 2009
Em nome de todos os filhos de D. Judith, Sales.

30. Como Finalizar? E Por que?

              O tempo vai passando e, vez ou outra, leio esses escritos para complementá-los ou para afagar o coração. Sempre me emociono com uma ou outra passagem aqui deixada. Realmente, um refúgio. Um local para o qual sempre pretendo retornar quando quiser ou precisar.
Minha intenção inicial era encaminhar essas palavras impressas aos meus familiares e amigos logo após a partida de vovó. Mas o tempo foi passando e fui colocando outras datas, como o primeiro mês de sua partida, depois o seu aniversário, depois o aniversário de um ano de sua ida, depois outras datas... E assim foi até agora, quase um ano e meio depois que ela nos deixou.
            Esse “livro” virou uma espécie de diário de lembranças, inacabado. Porque elas são inacabadas. Em meu dia a dia, constantemente, lembro de coisas que vovó me disse, de coisas que vivemos juntas. Passo por lugares onde estivemos, aonde fui levá-la, por onde gostaria de ter ido com ela... Sempre penso em escrever sobre tudo, o que faria dessas páginas talvez o dobro ou o triplo do que são. Fico pensando que não dá para acabar... Ou melhor, são tantas coisas ainda a serem ditas que não sei como acabar... Gostaria de falar de todos os momentos que passaram e talvez até dos que virão. Coisas do tipo: como partilharia tal momento de minha vida com ela, ou o que ela me diria em tal e qual momento....coisas assim...
            Escrever sobre ela me faz senti-la mais perto. Finalizar esse “livro” talvez me dê uma conotação de fechar mais um ciclo, de pontuar, mais uma vez, alguma etapa deste relacionamento. É preciso desapego...
            Desapego para deixarmos ir e partilharmos...sem necessariamente “perdermos”. Vovó me ensinou isso também. Muitas coisas para mim passaram a ter outro sentido depois de sua partida. Tanta coisa que era importante ficou sem tanta significância. Pois se eu poderia aprender a viver sem a presença física de minha avó, conseguiria também viver sem um monte de coisas que um dia julguei serem relevantes. É assim, aprendi isso.
            Joguei tanta coisa fora com a mudança de nossa casa da Imbiribeira. O símbolo de toda essa vivência com vovó. Uma referência de 31 anos presente, representada em tijolos, grades, jardins e terraços em U. Joguei fora coisas que guardei quase uma vida inteira. Permaneci com as agendas e lembranças, fotos e alguns cartões de pessoas queridas. Fiquei com alguns livros de vovó também. Guardei um casaco seu, que sempre estava com ela, em muitos de seus momentos. Guardei ainda um dos seus vestidos. Tinha o seu cheirinho agradável... E sempre recorria a ele quando queria me sentir mais próxima dela. O resto foi jogado fora. Uma lição de desapego.
            Mantive as lembranças, além dessas peças que as reforçam. Mantive a escrita dessas palavras aqui expostas como um resgate futuro do que pode vir a se perder no tempo. Mantive o amor a vovó. Aliás, esse não mantive como tal, ele tem aumentado sempre... Se isso é possível...
Mantenho a esperança no futuro, no tão comentado reencontro que muitos cristãos crêem. Mas sinto que está chegando a hora de deixar ir, de passar adiante essas minhas memórias.
            É que fico pensando em quantas coisas ainda me restam a dizer. E se eu me lembrar de algo importante e não tiver mais como escrever e partilhar isso? Por isso decidi fazer também um blog. Esse sim, poderá ser atualizado constantemente. Aí o ciclo parece não fechar... Até mesmo porque, no blog, terei a interação e os comentários de meus familiares e amigos e de todos aqueles que quiserem compartilhar... Comecei a configurar este blog no sábado, 30/04/2011. Assim que estiver pronto, avisarei a todos da família. O seu endereço é este: http://sobreminhaavo.blogspot.com/ e lá estão todos estes textos e mais alguns que sei, colocarei ao longo de minha vida.
            Não me sinto remoendo o passado ou me nutrindo de lembranças nostálgicas. Elas não me entristecem. Antes, me deixam bem. Eu me entristeceria em esquecer. Em não perceber a ausência de vovó em meus dias, como se as outras coisas tivessem tomado o seu lugar, preenchido o que antes existia. Sempre reagimos à perda. Sim, temos essa força, essa capacidade divina de seguirmos adiante. Creio que eu e todas as pessoas que conviveram com vovó temos conseguido fazer isso de maneira saudável. A saudade é conseqüência do amor que tivemos. Só se sente saudade do que foi bom. Por isso sentimos a sua falta.
            Falar de vovó, para mim, é pensar em minha vida, em minha formação. É falar de um amor que pouco se encontra por aí, de uma personalidade e caráter que buscamos alcançar, para nos sentirmos mais próximos de Deus. É relembrar de fragmentos da vida com significância de formação do que sou. Do carinho recebido, do cuidado, da manifestação de afeto mais sublime. É pensar no presente, nas minhas atuais relações, no meu modo de agir e de reagir às coisas que me cercam. É pensar no futuro, em como serei como mãe, como avó. Em como deixarei esse mundo... Queria que fosse como vovó, rodeada por pessoas amadas, sem muito sofrimento, com muita oração, muita lembrança boa, muita gente para dar o seu adeus e falar do seu amor por mim. Conseqüências do que fui... flores das sementes que, por ventura, eu tiver plantado. Alegra-me pensar também, que em minha partida deste mundo, reencontrarei Dona Judith, a me olhar com aquele seu olhar terno e sorriso de “entre lábios”, abrindo seus braços para enfim, eu poder abraçá-la de verdade, ser acolhida, ser resgatada.
            Por enquanto vou levando minha vida. Imaginando como seria cada momento com ela por aqui. É fácil, pois em quase tudo, eu tinha a sua aprovação. Sinto sua presença. Não algo sobrenatural, não é isso. Sinto a sua presença em mim. No que sou. Ouço sua voz em meu coração, em minha mente. Estou com ela! E vou levando a minha vida, partilhando com todos quem foi minha avó. Choro quando tenho vontade, sorrio quando desejo, falo sobre ela sempre que julgo conveniente, sonho com ela, possivelmente, sempre quando minha (in)consciência solicita sua presença.
Estou bem e desejo que meus familiares, principalmente os seus filhos, a minha mãe, fiquem bem também. Reconheço-me entre eles, (pretensiosamente, sim) como filha de Dona Judith. Sinto não ter vivido, como eles, tantos mais anos de minha vida ao seu lado. Mas não posso reclamar. Passei com vovó quase toda a minha vida.
            Ela tinha muitas preocupações com seus filhos e netos. Sempre conversava sobre todos eles, seus casamentos, trabalhos, situações de vida. Sempre queria ajudar. Sempre queria estar perto para poder fazer algo para auxiliá-los. Queria estar presente nos momentos tristes e alegres. Lembrava de todos os aniversários e queria presentear a todos, um a um, não só em seus dias, mas em todas as datas festivas que existissem. Foram muitas as idas aos shoppings e lojas (com ela ou sem ela) para fazer essa sua vontade.
Às vezes, ela reclamava porque nem todos apareciam para vê-la. E antes de acharem que isso é uma crítica de minha parte, sintam-se honrados, pois ela queria a presença dos seus amados por perto. Só estou referenciando isso. Sei que cada um fez o que pode e deu o que tinha. E que vovó sempre esteve satisfeita com tudo. Sempre reclamados, uma vez ou outra, da ausência de nossos amados. Tem sempre horas que não achamos o quanto os vemos suficiente. Isso também é amar. Faz parte...reclAMAR.
            Quero apenas reforçar aqui que vovó buscava uma vida boa para cada um de nós. Queria nos ver felizes, realizados com nossos desejos, seja lá quais fossem ou sejam até hoje. Gostaria, portanto, que se lembrassem disso constantemente. E se dessem o direito de buscar e reconhecer essa felicidade em família. Reforçar nossos laços, partindo de nossa casa, de nossos parentes mais próximos, nossos cônjuges, nossos filhos, os que nos rodeiam e nos fazem ser quem somos. Pensemos em vovó e busquemos melhorar. Fazer as coisas que realmente interessam para preencher nossas vidas. Ter atenção aos outros, cuidar de quem amamos, dizer isso às pessoas. Se não em palavras, em gestos. Acho que a gentileza é a melhor forma de expressão da educação e do amor. Façamos mais gentilezas com os nossos.
            Deixemos nossos problemas levarem o tempo necessário à resolução, fazendo o que estiver ao nosso alcance para saná-los e buscando ter a paciência necessária a que se resolvam no que não pudermos interferir. Não criemos problemas onde pode haver harmonia. Não nos preocupemos com aquilo que não temos gerência sobre e acalmemos o nosso coração diante destas situações. Isso é ter fé. Isso é esperar e perseverar na Vontade de Deus. Creio, sinceramente, que vovó ficaria feliz em nos ver assim, harmonizados com a vida e com a divindade.
            Acho que a maior lição de vovó foi o serviço. Passou a vida servindo aos que amava e conhecia. Da forma dela, nem sempre perfeita, nem sempre ideal. Mas sincera e solícita, atuante e presente. E isso é o que interessa. Sigamos esse seu exemplo. Enchendo o coração de humildade e afeto, tentemos servir aos que nos cercam. Sanar suas dores e acatar suas necessidades. Isso é também, essencialmente, o que Jesus nos ensinou. Façamos! E sempre que pensarmos em nos entristecer pela ausência de vovó, lembremos do quanto Ele deve estar cuidando de uma filha tão aplicada, que tanto deixou de exemplo a quem a conheceu e teve o enorme prazer de viver ao seu lado.

29. Queda Bem Humorada

            Dia desses, lembrando das quedas de vovó, recordei-me de uma que não foi tão tensa. Éramos pequenos, estávamos em mais uma de nossas viagens de férias em Arcoverde. Local: fazenda de Tia Selene e Toré. Cenário de muitas de minhas lembranças infantis. O terraço que rodeava a casa toda, limitando um “jardim” sem limites... Havia terra, muita terra e, ao longe, cercas que delimitavam o local. Mas cercas tão distantes que nossos olhos de criança pouco podiam avistar.
Ali fora, havia currais, celeiros e pastos. Lugares que se transformavam em verdadeira aventura visitar. Eu, com toda a minha ginga de menina de cidade grande, ficava toda por fora, querendo aprender, pegar nos bois, fugir das galinhas. Lembro de Judith ali, confortável e tranqüila com tudo do ambiente. Toda corajosa, me chamando: “vem Karla”, “coloca a mão na cabeça do boi”, “alisa a cabra aqui”... me orientando naquilo que eu achava tão surpreendente. Queria aprender, perder o medo, saber fazer aquilo tudo. A cada nova temporada de férias, sentia-me mais confiante e segura. Mas a sensação de aventura sempre era a mesma. Esta, permaneceu.
Na casa grande, eram quatro quartos bem confortáveis. O de tia Selene, uma suíte, ficava numa espécie de quina. Em sua frente, havia um pequeno corredor onde, ao final, era o quarto de Judith e, ao lado, um banheiro social. Vizinho à suíte, havia um quarto onde assistíamos televisão. Este, ficava próximo à cozinha, um dos locais mais espaçosos da casa. Tinha uma mesa grande, de madeira, de um lado e os aparatos de cozinha do outro. Mais adiante, podíamos ver uma sala enorme, com dois ambientes, onde havia uma mesa grande de jantar de um lado, e do outro lado, sofás, som e centro. No canto da sala da mesa grande de jantar tinha um outro quarto, o quarto de Silvinho.
A despensa era fora da casa, com suas latas de leite condensado que pareciam riquezas a serem alcançadas. Ir à despensa era explorar o território em busca deste tesouro. E não era um leite condensado comum. Não. O de lá, quando aberto, exibia um leite condensado denso, já quase um doce de leite cremoso. Era o calor que emanava no quartinho, ia cozendo as nossas riquezas comestíveis. Tornava tudo mais especial.
Lembro ainda do frio. Ui, todos os aposentos, em tempos frios pareciam ainda mais aconchegantes. Recordo de termos dormido em quase todos os quartos (exceto a suíte). Havia épocas que dormíamos no quarto de Silvinho, de Judith ou no quarto da televisão. De comum a todos eles? A escuridão da noite. Um breu tão grande que sequer víamos os dedos de nossa mão à frente de nosso rosto. Em todos eles, o aconchego da presença de vovó a me proteger, a me dizer que estava ali, do meu lado.
Pois bem, o episódio que segue ocorreu no quarto da televisão. Eram três camas postas paralelamente, uma delas era uma cama de campanha, daquelas de ferro que se montam abrindo ao meio. E a quarta cama era uma das que existia na fazenda, de madeira, tipo baú, colocada perpendicularmente às outras três.
Surama, a esta época usando o seu colete (para correção da coluna), já estava devidamente deitada, na cama do canto. Eu ajudava vovó a arrumar as outras camas. Não lembro agora quem seria a outra pessoa que dormiria conosco...talvez fosse Ilvinho...
Então vovó foi puxar a cama de campanha para armá-la bem direitinho. Eu de um lado (da parede) e vovó do outro (perto da cama baú). Quando ela começou a se afastar, abrindo a cama, o espaço estava curto e os calcanhares de vovó toparam na base da cama baú. Neste momento, vovó desequilibrou e caiu para trás, sentada. Tudo poderia ter sido mais tranqüilo (e muito menos engraçado) se simplesmente vovó permanecesse sentada na cama. Mas não. Ela foi afundando. Aliás, ela afundou tão rápido que, quando vi, só havia cabeça, pernas e braços visíveis de vovó. O resto estava enterrado num buraco da cama.
Vendo que vovó ria demais, se divertindo com a situação, eu também caí na gargalhada. Já era tarde e todos estavam deitados. Mas, de tanto rirmos, nem eu tinha força de levantar vovó (e ainda era muito pequena para isso, talvez uns 8, 9 anos...) e nem vovó conseguia, porque só fazia rir...
Surama, roboticamente, levantou o tronco e se mostrou preocupada, mandando eu parar de rir e ajudar vovó. Mas simplesmente, não conseguíamos! Depois, acho que passada a preocupação inicial da cena e vendo que tinha sido apenas um susto, Surama uniu-se a nós em risadas e questionamentos de como aquilo teria acontecido.
Os risos foram tantos que tia Selene, Toré, Judith e Silvinho foram até o nosso quarto. Chegando lá, viram aquela cena de vovó enterradinha no colchão, num buraco ao canto da cama. Só perninhas balançando e sorriso ecoando.
É engraçada a nossa memória. Tanto esta que me faz lembrar deste evento, após tanto tempo, como a memória que tive no momento que vovó caiu na cama. Automaticamente, lembrei de uma cena que havia visto à tarde, e que fazia todo o sentido. Mais cedo, brincando com Judith, passei pela cozinha e vi tia Selene fazendo um de seus trabalhos da escola. Ela sempre foi muito jeitosa com seus trabalhos escolares, cartazes, artes manuais... E neste dia a vi com uma tábua enorme, que fazia parte da estrutura da cama (do estrado), fazendo-a de régua para traçar uma linha em uma cartolina. Lembro que pensei: “eita, que massa, a madeira da cama é régua”. Pois é, a régua que não voltou para seu lugar, a régua ausente que desalinhou a segurança de vovó. Tia Selene não a havia posto de volta. Ficou o buraco na cama. O buraco que acolheu vovó em seu desequilíbrio momentâneo. O buraco que preencheu aquela noite de risos e, hoje, minha mente de recordações tão bacanas...

28. O Almoço com os Filhos

            Depois do seu aniversário de 90 anos, que eu me lembre, surgiu um novo ritual familiar. Sempre nos reuníamos, à noite, para celebrar os parabéns a vovó. Entretanto, durante o dia, havia um evento nuclear: o almoço de vovó com seus seis filhos.
            Lembro que iam ao Parraxaxá e outros restaurantes juntos. Sempre se reuniam com este intento. Era o momento deles. De colocar a conversa em dia, de passear com vovó, de comemorar ali, na base da família. Tia Selene e Tia Solange vinham de Arcoverde, o que, por si só, já se constituía em um evento para vovó. Tio Silvio reaparecia, geralmente, após um bom tempo sem tê-la visto, o que, para ela, sempre era uma grande alegria. Mamãe, tio Sales e tio Solon completavam esse momento tão especial.
            Aí já viu, dia de aniversário, vovó que geralmente acordava cedo, começava com as preocupações em se arrumar. Tomar seu banho, escolher e separar a sua roupa. Vestir-se, pintar-se. Perguntar se estava bem. Colocar um colar, uma pulseira. Não tinha as orelhas furadas para usar brincos. Demos a ela alguns de pressão, mas como quem usa sabe, chega uma hora que eles incomodam demais. Apertam os lóbulos da orelha e depois, parecem apertar nosso juízo. Às vezes, vovó ainda tentava. E vou confessar uma coisa: apesar de tudo, achava vovó mais bonita sem tantos aparatos.  Olho para as fotos de meu casamento e, vendo vovó toda arrumada, pintada, “escovada”, não encontro, de cara, minha avozinha. Só mais adiante, foco fixo nos seus olhinhos, dá para ver sua real beleza. A simplicidade que a caracteriza.
            Mas enfim, ela gostava de se ajeitar. Com antecedência, ficava aguardando a chegada do filho que ia levá-la. Dividiam-se em dois carros, pois todos juntos, não dava para ir. Eram sete ao todo. Foram três Marias e três Josés que minha avó colocou no mundo. Parecia até que ela sabia que um almoço animado se faz com mais de cinco pessoas... Ficava imaginando quais seriam as suas conversas. Seriam lembranças de suas vidas partilhadas? Seriam memórias infantis que eram relembradas? Sempre tive essa curiosidade e, é engraçado, pois nunca questionei isso nem a mamãe nem a tio algum. Muito menos a vovó, com quem sempre conversava e perguntava o que havia passado. Acho que via esse momento como privado, sei lá. Um momento muito deles, muito próprio. Podia ser algo até comum, corriqueiro. Mas eu achava muito especial.
E para vovó? Sua satisfação era visível. E apesar de demonstrar certo cansaço, quando chegava, sempre elogiava a comida, o lugar, o evento. Eu achava o máximo esse momento familiar... Vovó e suas crianças. A cada ano, talvez mais grisalhos todos, filhos-pais, filhos-avós...mas as eternas crianças de vovó, os “para sempre” filhos-filhos.
            Algumas pessoas, especialistas (médicos, terapeutas, dentistas...) ou não (gente da vida comum), comentavam que vovó era “nova e saudável” por não haver tido grandes tristezas na vida, como a morte de um filho, por exemplo. Sempre citavam esse fato como um evento que poderia ter desestruturado sua sanidade ou sua saúde física. “A dor sem nome”. A dor de quem sente revertido o curso natural da vida, no qual os filhos vêem partir primeiro os seus pais... Vovó, realmente, felizmente, não a experimentou. Viu seus pais partirem, muitos de seus tios, seu marido, muitos de seus irmãos...mas nunca um filho. Não sei se se mensuram essas dores. A perda é sempre muito difícil.
Eu olhava para vovó e a achava uma guerreira. Via-a em nosso núcleo familiar, mas ficava me questionando o que ela sentia em relação ao dela, de sua origem. Quando algum irmão de vovó partia, eu particularmente, ficava impressionada com a sua serenidade. Ela sofria sim, chorava. Mas logo adiante a víamos com tranqüilidade, a dizer que “assim é a vida”, que temos que nos conformar, que é a vontade de Deus. Ficava olhando para vovó e me questionando intimamente se o tempo conseguia essa façanha também. Ainda hoje, um dos meus maiores medos é ver morrer os meus amados. Medo que, inicialmente, vovó tem me ensinado a lidar. Até hoje, mesmo em sua partida, ela continua me ensinando coisas fundamentais. Mas olhava para ela e não entendia ou não concebia quanta calma, tanta lucidez, tanta serenidade.
            Não sei responder, nem imaginar se ela as teria mantido, caso houvesse “perdido” algum de seus filhos. Realmente não sei. Nem sei também se sua lucidez, saúde e mansidão se davam por este motivo. Mas sei que Deus foi, novamente, imensamente generoso com vovó. Ela partiu rodeada por seus filhos, em oração. E apenas onze dias depois de sua partida, o seu primeiro filho homem, tio Silvio, foi ao seu encontro. Ela pode, não apenas não vê-lo partir, como também recebê-lo em outra dimensão, junto aos anjos do céu.
            Não, nem sempre. Nós não entendemos os desígnios da vida, nem as propostas de Deus para nossas vidas. Mas tem momentos que devemos admitir nossa ignorância e insignificância diante de Sua sabedoria. E assim, aceitar o que Ele propõe para nossa existência e aos de quem amamos. Talvez essa confiança e conseqüente aceitação é o que nos torne mais serenos. Talvez ela venha com o tempo, com a maturidade, com a vivência... Talvez seja isso o que vovó tenha alcançado ao longo dos anos, que a fez manter sua serenidade e lucidez. Não sei, talvez... Esses pensamentos ainda me rondam com incerteza e admiração.

27. O Aniversário de 90 anos

            Festa! Sim, toda a família, em 2002, era unânime na decisão de celebrar a vida e os 90 anos de Dona Judith. Ela, claro, acatou tudo. Missa pela manhã, encontro com familiares durante a tarde, para a grande festa, à noite, em nossa granja de Aldeia. Um evento e tanto.
            Foi tudo muito bem feito, rodeado de uma atmosfera muito saudável entre todos nós. Vovó gostava de celebrar, de ver as pessoas queridas. Umas dessas pessoas, que estava sempre presente, era sua sobrinha Edna, uma figura constante em seus aniversários. Principalmente depois desse, de 90 anos, não me lembro de um ano sequer que Edna não tivesse ido lá em casa visitar vovó. E como vovó gostava dessa visita! Com o tempo se preparava e estranhava se Edna demorava. As duas riam muito, conversavam sobre o tempo em Buíque. Para vovó, era uma retomada de momentos de sua vida tão bons e significativos. Edna era a presença viva e o resgate atual de tudo aquilo. Creio que vovó se renovava nestes encontros. Mas voltemos ao seu aniversário de 90 anos...
            Durante a missa, pela manhã, vovó de vestido verde, ficou o tempo quase todo lá no altar da igreja, escutando as ações de graça pela sua existência. Ao final, muitas fotos foram tiradas, com todos os familiares presentes. Vovó cantou, bateu palmas durante as músicas, agradecia e balançava a cabeça, afirmativamente, sempre que algo era dito a seu respeito. Escutava o padre e as palavras do evangelho, sempre relacionadas ao agradecimento pela vida.  Em alguns momentos, ela parecia um pouco cansada, mas não demonstrava isso de forma a expressar descontentamento ou querer desistir do “projeto” comemoração. Apenas um cansaço natural, já inegável devido mesmo ao motivo de nossa celebração: a sua idade. O tempo quando passa, além de acalmar a alma das ansiedades, de amenizar as dores vividas, de nos deixar mais sábios e prudentes, também limita nossas forças. O cansaço físico é reflexo de sua passagem em nós, por nós. Nossa mente quer permanecer, ouvir, interagir, mas nossas pernas, coluna e atenção querem repouso, ainda que seja para continuar mais firme posteriormente. São necessárias paradas. Paradas de reabastecimento. Suspiros de fortalecimento. Busca de mais energia, de reforço. Superação. Parecia ser isso o que vovó expressava...
Na noite de seu aniversário de 90 anos, fizemos um cartaz com a árvore genealógica, baseada no tronco forte que era vovó.  Nela, colamos as fotos de todos nós, representando os frutos de sua relação com vovô Pedro e de todos os outros que foram unidos à família por meio do amor.
Eram tantas as pessoas ali na granja, gente que eu nunca tinha visto em toda a minha vida. Todos querendo tirar fotos com vovó, conversar com ela. Creio que nesse dia eu fui ter a dimensão maior de quem era vovó “antes de mim”... Perdoem-me o foco centralizado, mas esses escritos contam a história de minha referência de vida em relação à vovó. Não é que queira só falar de mim, mas aqui, só posso falar do que sei, sobre mim e sobre ela. Pois bem, surpreendi-me com tantas mesas e mesas de parentes distantes, amigos e conhecidos de vovó, que tiveram com ela uma referência de vida também, além daquela que eu tinha conhecimento. Senti-me pequena e, ao mesmo tempo, significante. Pequena, porque não havia participado de grande parte daqueles 90 anos ali comemorados. Não tinha visto tudo, não tinha estado em todos os lugares (por isso às vezes, escutava com tanto entusiasmo os relatos de Edna; queria entender, fazer parte, ainda que como ouvinte, daquela vivência toda).  Mas sentia-me, como disse, também significante, pois tinha um sentido na vida de vovó que, sabia, era representativo. Eu era sua neta “da diária”, da rotina, do dormir e acordar, do cuidar e ser cuidada, do comer junto, do conversar à tarde, de pedir a benção antes de dormir... do dia a dia de seus últimos 30 anos, pelo menos. Contentava-me com este terço de vida de tanta qualidade!
As pessoas nos viam, falavam coisas sobre vovó, queriam também se aproximar de nós, como referência atual da história desta vida. Foi um dia e tanto! Vovó, em alguns momentos, parecia estar tão cansada que parecia ausente. Sem entender muito bem tantas informações ao mesmo tempo. Mas era tão lúcida minha avó, que sei, suplantou o cansaço para ser gentil. Ouviu tantos discursos. Eu e Surama, como sempre, começamos falando e terminamos chorando... Nem lembro mesmo se conseguimos terminar de falar! A emoção era grande demais no momento de expressar, em palavras, o que tínhamos a dizer. E não fomos as únicas. Eu e Surama, como sempre. Mas muitos que não são de chorar estavam ali, sem conseguir falar de seus sentimentos. Lembro de Bian, Pedro, papai... Filho a filho. Belas palavras, muitos abraços...e vovó sempre sorrindo. Calmamente, ternamente. Sua humildade em receber tantas homenagens era igualmente comovente. Ô criatura amada!
Depois de seus 90 anos, graças a Deus, festejamos mais sete. Não com tanta pompa e circunstância como este. Mas com mais amor, mais agradecimento a cada ano que passava e que Deus nos permitia compartilhar nossas vidas com vovó. Cada ano era uma nova dádiva. Acho que comemorávamos sua vida e nossa alegria em tê-la, bem, ainda conosco. Todos os familiares se reuniam. Em nossa casa da Imbiribeira, o dia 25 de maio se tornou agenda prioritária. As fotos também eram prioridade. Fazia questão de eu mesma reunir, um a um dos presentes, para tirar fotos com vovó. Guardo-as todas. Distribuímos essas fotos depois que ela se foi, entre todos nós. Estávamos todos lá. Nem sempre com discursos proferidos ou expressões externas de nosso contentamento. Mas bastava nos olhar nos olhos para reconhecer, implicitamente, aqueles sentimentos presentes em todos nós: o agradecimento e a alegria de, por mais um ano, estarmos juntos ali, com o nobre motivo de celebrar aquela vida tão querida e importante para todos nós!

26. "De Fato é Mesmo"

           Vovó tinha vários bordões. Seu jeito de falar, hora ou outra, vem à minha mente, como se ela estivesse bem aqui, conversando comigo. Além de suas frases históricas como “menina cheia de nove horas” quando estávamos inventando algo fora dos padrões, cheias de nossas “cavilações”, que acabo de ver no dicionário significar “proposta traiçoeira”, vovó tinha seus modos de conversar que, azeitados por sua voz inconfundível e doce, tornava a palestra sábia, agradável. Seu modo de concordar conosco recheava o ar com a certeza do “de fato é mesmo”, como a contemplar nossa afirmação do alto de sua sabedoria e aprovação.
            Possivelmente, cada um da família tem seus ditos guardados. Tenho o seu “fia” impregnado em minha alma, como um reconhecimento do que sou para ela. Sempre me identificava com esse termo, que tanto me agrada o coração.
            Além dos sutis palavrões, já citados anteriormente, que de vez em quando soltava, lembro ainda de reclamar das “calcinhas curtas” de papai, referindo-se às suas bermudas, quando ia jogar sinuca nas tardes de domingo.
            De fato é mesmo uma cavilação da vida nos retirar alguém assim tão querido, embora saibamos que é seu curso e que não podemos perpetuar aquilo que finda com o tempo. Sim, fomos pegos de calça curta pela saudade, que esfria nossas pernas, faz tremer nosso coração, nos deixando cheios de nove, dez, onze... vinte quatro horas solitárias. É a saudade rainha que impera em nossos dias, como a nos submeter aos seus ditames. E nós, súditos, “fias” e “fios” deste sentir. Fios que se engrossam e se entrançam, se enlaçam e nos rodeiam. Fios de sentimentos que só podem perceber aqueles que foram “fias” e “fios” de verdade, do seu coração ou do seu sangue. Saudade que só sente quem amou e foi amado. Quem não amou passa despercebido, pelas nove horas, pelas cavilações, pelas lembranças. De fato é mesmo...

25. A Parte Ruim...

          Vovó nos deixou num dia de sábado. Era 14 de novembro de 2009. Passei a semana com uma turma de MBA, dando aulas intensivas das 18h00min às 22h00min, durante toda a semana. Para conseguir fazer isso, não visitei vovó no hospital nem na segunda nem na terça. Quarta-feira fui vê-la, porque haviam me dito que ela estava muito bem. Mas não foi isso que encontrei. Vi vovó na UTI, muito caidinha. Fiquei mal. Muito mal. Sempre chegava às aulas com o rosto inchado e, ao final do curso, brinquei com meus alunos que se um dia me vissem na rua perceberiam que eu não era muito diferente do que aquele rosto inchado. Pois sempre me viram assim, desde o primeiro dia de aula.
            Voltei a ver vovó na sexta. Na discussão familiar sobre se ela faria ou não uma hemodiálise. Procedimento paliativo, mas que não iria modificar a sua situação clínica, nada boa ao momento. Estavam todos na casa de mamãe e de lá fomos ao hospital. No meio daquela confusão toda, daquele “faz-não-faz” entre os familiares, entre as opiniões divergentes de dois médicos simpáticos, tudo ficou claro para mim. Para não guardar a sensação sozinha, chamei Surama e lhe disse: “vovó vai decidir não fazer”. Meu coração já sabia...
            Surama, olhos meio arregalados, ainda esboçou uma reação de um “como assim?”. E eu, serena, quase um tom de sorriso nos lábios, com a força que só os anjos puderam me dar, repeti que achava que vovó iria decidir não fazer, porque ela iria nos deixar antes...
            Queria entrar em detalhes para não deixar que o tempo leve esses últimos momentos de vovó de minha mente. Mas são muito dolorosos. Queria deixar aqui registrados datas e acontecimentos para que eu pudesse sempre tê-los como referência desse momento de minha vida. Como seu primeiro infarto no dia 19/08; ou eu correndo com ela no carro, por Boa Viagem, enlouquecida, tentando chegar ao hospital, num engarrafamento brutal; experiência que me fez tremer e chorar só de passar naquele caminho novamente, em outro dia... Mas são dolorosos demais para serem descritos aqui... A riqueza de detalhes e a dor são tão grandes em minha mente e coração que fico até questionando se um dia realmente terei capacidade de esquecer.
            Mas para abreviar esse capítulo doído, vou dizer apenas que no sábado fui ver vovó. Sussurrei ao seu ouvido palavras bonitas de paz, de amor. Essas, guardarei só para mim, pois sei, nunca as esquecerei e não quero julgamentos ou avaliações sobre o que disse... O que interessa é que ela partiu.
            À noite, fomos chamados ao hospital, vovó tinha piorado. Fomos, quase todos os familiares, para lá. Fabian estava trabalhando e Surama, sem babá, tinha ficado com Sofia, ainda muito bebê.

            A sensação mais estranha da vida. Esperar, na ante-sala, o momento de alguém amado partir... Rezar para que Deus permitisse que fosse sem dor, sem mais tormentos (para ela e para todos nós). E rezamos. Em certo momento, tia Selene pediu que nos reuníssemos para rezar por vovó. E foi neste “certo momento” que ela nos deixou. A enfermeira veio avisar e nos viu, a todos, de mãos dadas, rezando por vovó. Seu desenlace ocorreu sob nossas preces. Como um anjo que deixa um espaço e se vai acarinhado por muitos outros. Agradeço a Deus a singeleza desse momento. Queria eu um dia partir sob as orações de meus amados. Até nisso vovó foi abençoada. Até isso Deus nos deu de lembrança terna para recordar.
            Choramos, nos abraçamos, sentimos uma dor que só quem passa por isso sabe não descrever, mas reconhecer. Choramos por nós. Por nosso sofrimento. Pela vida sem vovó. Por ela, agradecemos. Não era mais a vida que ela queria. Não daquele jeito. Não fazendo hemodiálise para sanar um quadro cuja tendência era piorar. Vovó era mais do que isso. Penso sempre nisso quando quero me entristecer por sua ausência. Aliás, meu luto começou mesmo em agosto. Quando já não via mais aquela vovó entre nós. Seus momentos de ausência, seus momentos de fragilidade, quase sempre dormindo e pouco falando ou reconhecendo os seus, já não era a minha avó. Muitas vezes voltei para casa chorando, já sentindo a sua falta. Deus deu-nos tempo para tentar aceitar melhor. Criou condições para que, em alguns momentos, até desejássemos que tudo finalizasse. Sinto pelos que não crêem em Deus e em Seus desígnios. Fico imaginando como lidam com essa dor sem crer que tudo é divinamente preparado. Não há coincidências ou castigos nas nossas histórias. Há mérito e conseqüências. E vovó nos provou o quanto merecia uma vida melhor!!!

24. Meu "Melhor Amor"!

           Um dia desses, dia de solidão, todos nós temos dias de solidão. Dias em que, ainda que rodeados de gente, nos sentimos sozinhos. Como somos. Todos somos sozinhos. Pois bem, num dia desses, pensando em minha vida, agora meio virada de cabeça para baixo, sem vovó, sem a presença mais constante de papai, com a presença oscilante de mamãe, lembrei de vovó. E consegui defini-la assim: o meu melhor amor! Vovó é o meu melhor amor. O amor mais fácil de amar...
            Nascemos rodeados de amores, dos pais, dos irmãos, dos familiares e depois dos amigos, do cônjuge... e com esses amores, sempre aprendemos muito. A ceder, a permitir, a acarinhar. Também a protestar, a confiar, a cuidar... Mas nem sempre são amores fáceis. Por vezes amamos com luta. Com o ardor de querer fazer dar certo. Amamos com lógica, como se repetíssemos, sei lá, ah, ele é meu primo, tenho que amá-lo. Amamos com críticas, como a querer encaixar o nosso amor à nossa moldura, àquela que acreditamos ser a mais coerente. Amamos com condições, com medidas, com alguns limites. Sim, a vida é assim, cheia de amores que nos moldam também, nos fazem renunciar, repensar, chorar, reaver... E é bom que haja amores diversos, crescemos. Mas há um tipo de amor que nos nutre. Dá-nos força para lidar com todos os outros amores. Esse é o nosso melhor amor!
            Vovó era (é) o meu melhor amor. Amor sem medidas, sem condições. Amor de alma. Retirando a parte erótico-afetiva a qual muitos atribuem à alma gêmea, posso considerar vovó a minha alma gêmea. A minha gêmea de alma. Sou menor. Não tão terna, não tão servil, não tão serena. Mas orgulho-me em parecer com ela, mesmo que em menores proporções.
Meu amor tão fácil de amar. Para quem eu nunca fui mal interpretada. Nunca precisei explicar mais de uma vez as minhas intenções. Ela confiava em mim! Nunca precisei repetir desculpas, pois creio que pouco ou nunca lhe magoei e mesmo que o tivesse feito, ela esqueceria. Amor sem críticas, mas não um amor cego. Um amor que dava conselhos, orientava nos erros, mas não reprimia, não censurava. Poucas vezes notei ter feito algo que a desagradava. Havia admiração mútua em nossos gestos. Aliás, tudo isso que digo de mim, também sentia em relação à vovó. Eu a compreendia. Bastávamos nos olhar para saber. Nossas conversas eram de cumplicidade. Quando fazíamos algo pela outra era com vontade, vontade de agradar. E por fazer, já nos sentíamos agraciadas. Quando eu fazia algo para vovó era como se a mim estivesse fazendo. Havia satisfação. Havia o tipo de amor que Jesus solicitou ao mundo: amássemos ao próximo como a nós mesmos.
Agradeço a Deus, por uma vez que seja, na vida, ter conhecido esse tipo de amor. Rezo para que com meus filhos, ou quem sabe com uma neta, eu consiga alcançar essa graça novamente. É um amor que renova. Que nos enobrece a alma. Que nos torna melhores. Agradeço a Deus por vovó ser esse amor, não poderia haver melhor. O meu melhor amor!
             

23. Os Sonhos Continuam....

           Estamos há cerca de um ano e meio do falecimento de vovó. E posso dizer, agradecida, que os sonhos continuam. Sonho com vovó frequentemente, quase semanalmente. Ela vem aos meus sonhos de várias maneiras: forte ou mais fraquinha, quando já na fase de sua maior debilitação... É interessante que sempre que sonho com ela assim, a coloco nos braços, como a uma criança frágil. É muito intenso.
            Ela surge em sonhos com temas comuns, cotidianos. Vem em momentos de alegria, de saudade, ou de minha maior fragilidade, me aconselha, me dá ânimo. Está sempre presente.
            Considero estes sonhos terapêuticos. Renovam-me. Apesar da saudade que trazem, exatamente porque reavivam a presença e imagem dela para mim, fazem isso de tão importante: não deixam que sua imagem se esvaia da minha memória nem que a sensação de tê-la por perto diminua... Considero isso uma benção de Deus. Não fico melancólica ou nostálgica (pelo menos não a maioria das vezes), sinto-me aliviada por “vê-la”, por sentir sua presença por perto, por parecer ter encontrado com ela mais uma vez.
            Recentemente, em um de meus momentos de certo desânimo, pelas circunstâncias da vida que sempre nos cercam, sonhei com vovó novamente. Eu estava dormindo e ela me aparecia no quarto. Sentava na cama e colocava minha cabeça em seu colo. Afagava meus cabelos e como sabendo de tudo o que se passava comigo, me dizia para ter paciência (“Paciência, fia”), para não desanimar, que tudo ia se resolver... Senti uma espécie de plenitude neste momento de acolhimento, de compreensão e, sobretudo, afeto. Lembro que, ainda em meu sonho, papai aparecia na porta do quarto e me chamava à atenção para uma televisão desligada, ao lado da cama. Nela, víamos a imagem de vários anjos rezando. Parecia que era essa oração angelical que viabilizava a presença de vovó ali... Perguntei a papai se ele a via. Ele respondia que não e saia do quarto, um pouco assustado. Mais adiante, eu contava esse episódio a mamãe, Surama, Fabian e outros familiares. Sempre me emocionava ao contar para cada um deles. Acordei com os olhos ainda em lágrimas pelas lembranças e sensações vividas.
            De volta à realidade, tudo passa por uma readaptação. A constatação de que tudo foi um sonho, a princípio, é um pouco triste. Mas ciente da impossibilidade momentânea de sua presença e retorno, compreendo que esta é a forma que Deus me permite estar em contato com a lembrança de minha avó, da maneira mais verdadeira (pois quando sonho tudo é muito real) que Ele pode proporcionar no momento. Agradeço. Sempre agradeço.
            Lembro da avó que tive, de sua importância para minha vida e formação. Lembro da dádiva de ter tido seu amor da forma que tive. E de tê-la amado da melhor maneira que pude. Lembro que tudo o que sonho é real mesmo, porque seria assim, se ela estivesse aqui comigo, em vida.
Depois dessa breve, breve mesmo, readaptação à realidade e à constatação novamente da ausência de vovó, meu dia se torna melhor. Sigo seus conselhos, sempre sábios, ainda que em sonhos. Acalmo minha alma, sinto uma felicidade genuína, sem que nada ao meu redor precisasse ser, efetivamente, modificado. Sinto uma mudança de atitude, uma mudança de perspectiva. É terapêutico, me renova, me fortifica, me enobrece. Tento ser alguém melhor para, como ela, ser querida por tantos. E, aproximando-me do seu exemplo, sentir-me mais próxima a ela. Tento ser alguém melhor, para que ela se orgulhe de mim, onde quer que ela esteja. Tento ser alguém melhor, sobretudo, para merecer ter mais sonhos com ela!

22. Os Sonhos

            Algo que considero uma dádiva, neste tempo, é a oportunidade de sonhar com vovó. Sonhei com ela, pelo menos, sete vezes nestes trinta dias que se passaram. Nos meus sonhos, posso conversar com ela, beijá-la, abraçá-la, como sempre fazia aqui. Creio que é um resgate da minha mente, para manter minha saúde, meu equilíbrio. Não se corta um laço assim...
            No meu primeiro sonho, conversávamos, eu, vovó, mamãe e Cláudia. Falávamos sobre um novo apartamento que Claudia tinha comprado e que vovó dizia ser “muito bom”, “que tinha gostado bastante”. Fragmentos do meu dia. Estamos procurando apartamento para morar... Espero, em sonho, possivelmente, a aprovação de vovó. Ela vestia seu vestido branco de bolinhas pequenas, azuis e amarelas. Tinha aquela carinha de sempre, atenciosa, querendo agradar. Estava entre nós, como sempre esteve, nos assuntos familiares. Bom sentir que podíamos conversar com ela.
            No segundo sonho, foi o único que a imagem de vovó era como quando ela estava no hospital, já debilitada, pequenininha. Ela, com a dificuldade que estava para falar, me pedia para chamar Maria. Ficava lhe questionando quem seria essa Maria e senti muito não poder ajudá-la. Ao acordar, chorando, fiquei pensando que poderiam ser suas filhas (afinal, são três Marias) ou quem sabe, a Nossa Senhora, a qual vovó sempre chamava em seus últimos anos.
            O terceiro sonho foi mais alegre: estávamos em uma rua do bairro, assistindo ao desfile da banda do colégio Boa Viagem. Cadeiras na calçada, eu, vovó e mais alguém que não lembro quem era. Vovó vestia seu vestido verde estampado com flores amarelas e, o mais interessante, era que calçava uma sandália preta minha, altíssima. Eu dizia a ela: “vó, como você está alta!” E ela me respondia: “pois é, é essa sandália aqui, mas ela é tão boazinha...” Seu aspecto era saudável, forte, bela. Uma alegria compartilhar esse momento com ela assim.
            No quarto sonho, estávamos no terraço lá de nossa casa da Imbiribeira (onde eu costumava assistir televisão com vovó). Eu, mamãe, Surama e ela. Conversávamos e ríamos. Não lembro o quê ou de quê. Mas era nosso convívio resgatado em sonho. E isso já me rendeu um dia mais tranqüilo...
            Os demais sonhos foram muito próximos do dia 14/12 (data do trigésimo dia de seu falecimento). No dia 10/12, uma quinta feira, voltei para casa do trabalho sentindo muita falta de vovó. Chorei muito, senti sua ausência em meu dia a dia como algo cruel. Questionei-me se saberia viver com isso a minha vida inteira. Adormeci com ajuda de um medicamento. Sonhei que vovó aparecia na mesa de jantar. Estávamos: eu, mamãe, tia Solange e Mércia juntas. Vovó surgia e agora, tínhamos consciência de que era uma “aparição”, pois sabíamos que ela já havia falecido. Mas ela vinha, fazia aquele jeito na boca, de um bico, apontando o seu lugar na mesa. Pedi a Mércia que deixasse livre o lugar de vovó; Mércia saiu e vovó sentou-se ali, onde tantas vezes compartilhou conosco nossas refeições. Eu pegava em sua mão, não acreditando em “seu retorno”, mas imensamente emocionada com a possibilidade de vê-la novamente. Ela falava alguma coisa para tia Solange, algo como que para ela se cuidar. E eu chorava tanto, que acordei... Mas agradeci a Deus a lembrança viva de vovó em meu sonho!
            Um dia depois, dia 11/12, sexta feira, sonhei novamente com vovó. Agora ela estava comigo e com Surama. Não me lembro do conteúdo do sonho, mas lembro que conversávamos e que, de repente, algo engraçado foi dito. Vovó gargalhava e, junto com ela, eu e Surama. Acordei de madrugada, com minha gargalhada ecoando no quarto. Ao encontro com a minha realidade, quis entristecer, mas aquela sensação de riso com vovó foi tão mágica que voltei a dormir sorrindo e passei o dia inteiro com uma sensação boa, de ter vivido algo saudável, tentando me lembrar especificamente dos motivos, sem sucesso. Mas os efeitos perduraram. Ainda agora, lembrando do sonho, esboço um sorriso nos lábios.
            E por fim, no dia 13/12, sonho com vovó “retornando”. Meus últimos sonhos já traziam essa consciência de sua partida e da possibilidade de estar com ela somente “em espírito” ou “em vidência”. Vovó aparecia e desaparecia. Mas quando vinha, era como se estivesse aqui, em carne e osso. Conversava, ria, comentava as coisas do nosso dia a dia. Eu sempre a beijava muito, a colocava perto de mim, a abraçando quase como se a pusesse no colo. Eu dizia a algumas pessoas, que não acreditavam. E lembro-me do meu telefone celular tocar e ser Lena na ligação. Eu dizia: “Lena, vovó está aqui. Voltou para nos visitar”. Lena não achava isso possível, então eu passava o telefone para vovó. E ela, com aquela sua voz doce, que tanto bem me faz ouvir, mesmo que seja em sonho, dizia: “Lena, eu estou aqui! Tudo bem com você? Quero que fique bem, viu? Deixe os problemas pra lá...” Lena chorava muito, se emocionava demais, dizia que ia correndo para lá, ver vovó. Mas aí vovó dormia. Mais ou menos como acontecia quando ela já estava se recuperando do enfarte. Ela falava conosco e de repente “apagava” dormindo, como se desconectando da realidade... Isso acontecia também em meu sonho, constantemente.
                    Acordei agradecendo a Deus mais uma noite junto a vovó! É mágico, é pleno. Posso senti-la, tocá-la, ouvi-la... É, verdadeiramente, uma benção! Peço a Deus que me permita esse “encontro” com vovó freqüentemente. Isso me apazigua a alma, me acalenta o espírito. Creio que Deus sabe que é muito cruel cortar totalmente uma convivência assim... Penso isso às vezes.
            Creio que vovó está perto, às vezes, penso senti-la, perceber sua presença. Mas não a posso ver, tocar, ouvir... Isso é muito ruim. Eu, que sempre fui aonde vovó estava, sinto não poder ir encontrá-la onde ela está agora. Então penso que o sonho me leva até ela, me conduz até onde, em vida, eu ainda não posso chegar. E o sonho mantém nosso contato, nossa convivência. Loucura minha? Loucura é pensar que ela não está mais aqui comigo... Isso sim enlouquece quem ama!