segunda-feira, 27 de junho de 2011

17. As Quedas de Vovó

           Como falei em pesadelo, lembrei de alguns que vivenciei, acordada. A imagem de minha avó caindo, ao meu lado, refletindo sua fragilidade inegável, impossível de se ocultar, ainda me dói, embora reconheça a Graça da atuação de Deus, em cada uma delas. Vovó caiu mais de seis vezes. Em quatro quedas, eu estive presente, ao seu lado. As duas últimas foram mais sérias. Creio que Deus me poupou deste trauma, embora só imaginar já me cause reações adversas. Fora estas últimas, nenhum grave dano foi imputado à minha avó. Era mesmo uma abençoada. Eu lhe repetia isso sempre. Quando caía, quando a levantava, quando a via depois.
            A primeira queda de vovó foi um grande impacto. Não só físico, como emocional. Não só para ela, fiquei também chocada com a “facilidade” do acontecimento. Tínhamos chegado em Aldeia, na granja de meus pais. Vovó saiu de dentro do Uno e abriu a porta até aquele ponto em que ela pára, porém não está ainda encostada até o final. Saí pelo meu lado, pois sempre ia abrir a porta para vovó ou segurá-la em sua saída. Quando ela “se firmou”, como costumava dizer, dei as costas à vovó e fui pegar alguma coisa na mala. Nesse ínfimo tempo, pequeníssimo segundo de revolução, vovó cambaleia e se apóia na porta, em falso, para se segurar. Ao invés disso, mergulha no chão, como fazem os jogadores de voleibol na busca ansiosa de uma bola difícil. Vi minha avó cair e não pude fazer nada! Muito prazer, sou a impotência. Eu a conheci! E não achei nada prazerosa a sua apresentação.
            Sempre ouvi dizer que os idosos, ao caírem, poderiam desenvolver graves problemas. Muitos deles começavam a decair a partir deste episódio. Ouvi histórias de idosos que, após a queda, ficavam feridos, não se recuperavam, quebravam ossos facilmente, que a muito custo iriam se regenerar e, neste meio tempo, outras complicações surgiam, podendo chegar até a morrerem abreviadamente, a partir daí. Meu terror também transcorreu aquele segundo de revolução. De forma tão intensa que consigo rememorar a sensação. Neste segundo, tantas dúvidas, tantas hipótese infelizes, tantos “se”, tantos “porquês” me rondaram a mente que não saberia descrevê-los além do que já fiz.
            Acho que a adrenalina foi tanta que a força muscular se potencializou. Aliás, além desta, em que tive a ajuda do caseiro da granja para levantar vovó, em todas as outras suas quedas, em que estive ao seu lado, levantei vovó sozinha. Melhor dizendo, levantei vovó com a ajuda dos anjos, porque sozinha, eu não conseguiria. Mas a levantei com uma facilidade que nem eu nem ela acreditávamos. Mas agradecíamos, intimamente.
            Levantamos vovó. Eu, com a voz trêmula, conversando com ela como se não tivesse acontecido “nada demais”. Jamais vou esquecer seus olhinhos arregalados, também incrédulos com o que acabara de acontecer. Possivelmente, os mesmos pensamentos arrebatadores passaram na mente de vovó, naquele segundo de revolução.
            Depois dela acomodada e tendo visto que nada de mais grave (?) havia lhe acontecido, como boa aprendiz que sempre fui, entreguei-lhe um copo com água: “para passar o susto!” Ela se acalmou mas, a partir dali, nunca mais fomos as mesmas!
            A segunda queda de vovó foi no quarto de mamãe. Ela foi atender ao telefone e passou por um lugar bastante estreito, entre a cama de casal e uma penteadeira que havia lá. Desequilibrou e caiu sentada. Ouvi um barulho em casa. Já apavorada (a palavra é exatamente esta) por causa da experiência com sua primeira queda, saí correndo pelo corredor, coração na garganta, olhos de lince em busca de vovó. Ela me chamava. Repetia baixinho, surpresa e, desconfio, também apavorada: “Karla, minha filha, eu caí.” Minha vontade era de chorar, de gritar! Mas tinha que ser firme, tinha que dizer a vovó que tudo estava bem. Levantei-a novamente, agora sozinha (?) aos olhos humanos, sentei-a na cama. Após a água, tentamos nos acalmar.
            Na terceira e quarta quedas, vovó foi ao chão da sala. Uma vez, na sala de visita. Outra, na sala da televisão. Em uma, eu estava perto, mas escutei, novamente, só o barulho. Na outra, eu quase a segurei, mas não consegui. A impotência, se apresentando novamente, parecia rir da minha miséria. Em todas elas, o mais difícil para mim era encarar os olhinhos assustados de vovó e captar o que poderia estar passando em sua mente, sobre sua própria falibilidade. E diante de tudo isso, inclusive dos meus mais íntimos medos, encará-la (porque era preciso para ela ver que não era mentira!) para lhe dizer que estava tudo bem, que ela era abençoada porque nada demais tinha lhe acontecido, que tinha sido apenas um susto. Eu até brincava, para quebrar o gelo, depois de um tempo, que ela estava madura, que ela estava trelando...essas coisas que são ditas às crianças quando se quer amenizar a gravidade de uma situação que, moralmente, também as abala.
            O difícil era convencer vovó de tudo isso. As quedas mexeram com ela, com sua autonomia, com sua segurança. Vovó tornou-se mais dependente, mesmo sem perceber. Tinha receio de ir e vir, tinha medo de cair. O medo. Esse sentimento limitante! Minha avó o conheceu a partir das quedas. E já não bastasse sua condição naturalmente limitada pela idade, ela agora começava a desenvolver uma noção de restrição moral, psicológica. “BOSTA”, minha vez de dizer!
            Nossa humanidade é contraditória. Nossa espiritualidade também. Apesar de ser imensamente agradecida a Deus por nada de mais sério ter acontecido à vovó, em cada queda que ela levou, eu, tempestuosamente, ousava ainda, por outro lado, reclamar! Questionava a Deus, inconformada, o porquê de vovó sempre cair ao meu lado, ninguém em casa, só eu para testemunhar. Por que logo eu, que tanto a amava, precisava acompanhar essa espécie de situação tão desagradável, sem poder ajudá-la, sem poder fazer nada a respeito? Dizem que o tempo de Deus não é o tempo dos homens. Sabemos disso, mas muitas vezes, só reconhecemos o aprendizado na vivência, no encontro vivenciado com o que é transmitido. Humanidade em evidência, espiritualidade reduzida essa minha... Deus mostrou-me a resposta ou mudou o sentido do meu questionamento, fazendo-me ver Suas sublimes razões.
            Nestes últimos meses, quando vovó começou a se debilitar e a saudade, com suas imagens, cheiros e vozes, começou a me visitar incessantemente, agradeci. Agradeci a Deus a oportunidade de ter sido eu a estar ali, ao seu lado. Não desejei que fosse mais ninguém. Quis ser eu em cada momento. Joguei fora meu egoísmo medonho em não querer sofrer ao ver a cena dela caindo (embora fosse compreensível, pois é difícil condenar quem quer se eximir de ver o sofrimento de quem ama) e me senti, imensamente, privilegiada. Deus me deu a oportunidade de dividir com vovó os seus medos. A possibilidade dela olhar a sua volta e logo me encontrar, com um rosto sereno, com uma voz firme, animadora. Talvez, só talvez, eu tenha sido essencial para equilibrar minha avó, não só fisicamente, como psiquicamente também. Talvez a sua vergonha tenha sido reduzida pela cumplicidade que tínhamos e seus medos, pela confiança que ela depositava em mim. Deus me permitiu, antes de tudo, retribuir a vovó aquele olhar materno que ela tantas vezes me deu, quando eu caía, e que me fazia entender que não tinha sido nada grave. Como não poderia ser eu? Hoje tudo faz tanto sentido...
Agradeci e agradeço tanto a Deus que com Sua Sublime Sabedoria, transforma nossos dissabores em dádivas. Não vou dizer que as lembranças dos momentos são boas ou que gostei de tê-los vivenciado, em sua essência. Mas reconheço que o contexto dos acontecimentos é sublime, por nos permitir mais alguns momentos significativos juntas. Uma paisagem real não é só composta de belas paragens, gramado farto ou céu azulado. Uma paisagem real também revela uma árvore seca, um animal caído ou morto, um solo infrutífero. Mas é uma paisagem real, existente, inegável, componente.
            Sim, o amor transforma coisas ruins em boas, pois consegue sublimar os seus significados. O amor nos fortifica, nos enobrece. Naqueles segundos de revolução, os olhos de vovó se encontraram com os meus! Sua falibilidade encontrou-se com minha aparente confiança e forçoso otimismo, sua fragilidade deparou-se com a força de meu amor e a vontade de protegê-la. E se, por este segundo que seja, eu tenha conseguido confortar o seu coração, o meu amor encontra-se com aquela prepotente impotência e lhe diz, sorrindo e sereno: eu ainda fui o mais forte!

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