quarta-feira, 24 de agosto de 2011

34. É um menino!

24 de agosto de 2011


Vovó com Fabian

            Quando vovó estava doentinha, eu escutava um ou outro comentário, muito tímido, sobre ouvirem ela se lamentar que não veria meus filhos nascerem. Na época, lembro que sentia uma conformação muito grande, embora meu desejo fosse o de que ela pegasse um filho meu no colo ou que, por um momento que fosse, essa criança pudesse sentir o amor desta senhora, que parecia um bálsamo em nossas vidas, revigorando nossas forças (assim como foi comigo...).
            Mas creio que minha conformação advinha de minha crença de que não “encerramos” por aqui, com nossa morte física. Sempre acreditei que ainda que vovó não estivesse aqui entre nós, ela nunca, jamais, estaria longe de mim ou deixaria de ver os meus futuros filhos. Às vezes me surpreendo em ter alguns sentimentos tão desprendidos. Não sei de onde vem essa força, essa constatação. Na época em que ouvia esses comentários, sentia uma breve lamentação visitar minha mente, mas logo era afugentada por esta crença. Talvez eu soubesse da grande possibilidade de vovó não ver mesmo meus filhos, em vida, e logo, meu inconsciente arrumava um jeito de me proteger.
            Já chorei algumas vezes pensando nisso, mas sempre fui consolada com esses pensamentos de eternidade e por aquele conhecido copo d´água que ela mesmo me ensinou a tomar, para acalmar a alma.
Vovó recebendo Sofia
dos braços de Breno
             Vovó se foi... e convenci meu coração de que agora, de forma mágica, ela estaria mais próxima aos meus filhos, pois ela estaria “lá”, de onde eles vinham. Ela os encaminharia para mim, quem sabe? Ela os veria de uma forma que nós humanos, somos limitados a perceber. Ela seria uma espécie de anjo da guarda iluminado, a lhes mostrar o melhor caminho a seguir e a protegê-los com a força de seu amor. Sim, convenci meu coração. Ainda assim, em alguns momentos, me vejo pensando em fotos que jamais serão tiradas, ela com eles nos braços ou numa pose familiar qualquer... Mas são pensamentos céleres, passageiros, ligados ainda à minha porção não desprendida, humana, racional.
             Engravidei um ano e meio após a partida de vovó desta vida. Engravidei no mês de seu nascimento. No mês de maio, mês de vovó... Nos primeiros dias, logo em que soube, sequer consegui dar a notícia a alguns familiares. Não conseguia falar que seria mãe sem me lembrar de vovó, de que ela não estava mais aqui para me escutar dizer (embora minha outra porção, aqueeela mais “espiritualizada”, acreditasse que ela já sabia, antes mesmo de mim). Mamãe ou Breno eram encarregados de dar a notícia. Eu chorava, de alegria e de saudade. Um misto de vinda e partida, de plenitude e falta. Como cabem ambigüidades em nós... Minhas porções humana e espiritualizada que o digam...
             Mas o tempo passou. Ah, esse elemento... consolador, ponderador... evidenciou a parte mais elevada, devolvendo-me a conformação. Os dias passaram e todas as novidades da gravidez vieram junto. Corpo mudando, mal estar, sono impulsivo, expectativas futuras...cada etapa vivenciada ao seu tempo. Às vezes, minha memória pegava emprestadas palavras de vovó que foram endereçadas a Surama, quando ela estava grávida, aperreada com tantos enjôos, e imaginava vovó me dizendo o mesmo: "tenha paciência, fia, tudo vai passar..." Vovó esteve sempre em minhas lembranças, nos sonhos, na minha saudade.
             Desde que engravidei, dei tempo ao tempo, a que tudo acontecesse. Saber o sexo do bebê seria mais uma destas etapas, que eu viveria ao seu tempo, no momento certo. Não me senti ansiosa nem com pressa em saber. Também não sentia nada do que dizem sentir algumas mães, que “desde sempre” sabem, indubitavelmente, o sexo da criança que geraram. Não sabia, não sentia, não desconfiava. E nem tinha preferências. Acho que o primeiro filho é sempre uma dádiva, seja de que sexo for. E talvez, por desejar ter mais de um, dois ou quem sabe, três filhos, eu tenha esperança de que os dois gêneros se façam presentes, uma hora ou outra. Então não importaria qual deles daria início à série.
             Entretanto, aproximando-nos da décima sexta semana de gestação, minha médica já havia feito uma previsão de que este seria um momento “batata” para saber o sexo do bebê. E sugeriu uma ultrassonografia à esta época. Data e possibilidades definidas, minha porção calminha começou a dar lugar à ansiedade pela identificação. Seria uma quarta feira, dia 24/08/2011. No sábado anterior, sonhei com vários exames. Eles se alternavam entre resultados de “menino” e “menina”. Conclusão ao amanhecer? A mesma de sempre: poderia ser qualquer um dos dois!
             Mas aí, um novo fato ocorreu: dois dias antes do exame, um instante apenas antes de despertar, ouvi, em meus sonhos, alguém falar: “sua avó Judith mandou dizer que será um menino”. Acordei de pronto! Coração batendo forte. Respirando fundo, convenci-me de que tinha sido apenas uma forte impressão. Uma impressão tomada pela emoção do momento e pela lembrança de vovó, sempre constante em meu amanhecer.
             Mas então, no dia anterior ao exame, outro sonho. Desta vez, ela não “mandou dizer”. Vovó Judith aparecia na cabeceira da cama na qual eu estava deitada, rodeada por papai, mamãe, Breno, Surama e um médico que ouvia o coração do bebê. E ela dizia com ar de certeza: “está vendo aí, fia, não lhe falei que era um menino? Olha ele aí. É um menino!”. Acordei! Agora mais desconfiada do que na noite anterior, embora ainda considerasse que poderia ser um reflexo do sonho prévio, uma tentativa do meu inconsciente em confirmar o que tinha sido uma forte impressão na outra noite. Bom, agora faltava pouco para saber...
             O que eu não sabia era que, durante o exame, ao médico dizer que era um menino, minha porção saudade apareceria tão contundente. Na sala com o médico, Breno segurando minha mão e mamãe ao lado, pude escutar novamente a doce voz de minha avó, confirmando não só o que tinha me dito no sonho (“batata!”), mas principalmente, que ela realmente NUNCA me deixou, que ela sabia antes de mim, que ela o preparou, de certa forma, para mim e que, possivelmente, ela nos acompanhará durante muito tempo.
             Chorei novamente de alegria e saudade, de plenitude e falta, por ser mãe e por ser "filha", por meu menino e por minha avó... Em meio a tanta ambigüidade, minha porção maior se felicitou: mais uma prova de nossa eternidade se renovava ali, entre uma vida que se foi e uma que virá... E eu lá, uma vida no meio, para testemunhar, amar e escrever sobre tudo isso...