segunda-feira, 27 de junho de 2011

26. "De Fato é Mesmo"

           Vovó tinha vários bordões. Seu jeito de falar, hora ou outra, vem à minha mente, como se ela estivesse bem aqui, conversando comigo. Além de suas frases históricas como “menina cheia de nove horas” quando estávamos inventando algo fora dos padrões, cheias de nossas “cavilações”, que acabo de ver no dicionário significar “proposta traiçoeira”, vovó tinha seus modos de conversar que, azeitados por sua voz inconfundível e doce, tornava a palestra sábia, agradável. Seu modo de concordar conosco recheava o ar com a certeza do “de fato é mesmo”, como a contemplar nossa afirmação do alto de sua sabedoria e aprovação.
            Possivelmente, cada um da família tem seus ditos guardados. Tenho o seu “fia” impregnado em minha alma, como um reconhecimento do que sou para ela. Sempre me identificava com esse termo, que tanto me agrada o coração.
            Além dos sutis palavrões, já citados anteriormente, que de vez em quando soltava, lembro ainda de reclamar das “calcinhas curtas” de papai, referindo-se às suas bermudas, quando ia jogar sinuca nas tardes de domingo.
            De fato é mesmo uma cavilação da vida nos retirar alguém assim tão querido, embora saibamos que é seu curso e que não podemos perpetuar aquilo que finda com o tempo. Sim, fomos pegos de calça curta pela saudade, que esfria nossas pernas, faz tremer nosso coração, nos deixando cheios de nove, dez, onze... vinte quatro horas solitárias. É a saudade rainha que impera em nossos dias, como a nos submeter aos seus ditames. E nós, súditos, “fias” e “fios” deste sentir. Fios que se engrossam e se entrançam, se enlaçam e nos rodeiam. Fios de sentimentos que só podem perceber aqueles que foram “fias” e “fios” de verdade, do seu coração ou do seu sangue. Saudade que só sente quem amou e foi amado. Quem não amou passa despercebido, pelas nove horas, pelas cavilações, pelas lembranças. De fato é mesmo...

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