Vovó nos deixou com 97 anos de vida. Essa Graça, Deus nos permitiu e somos todos muito felizes por isso. Durante este tempo todo, houve uma grata mudança em nossas vidas. De tantos cuidados recebidos de vovó, tive a célebre oportunidade de poder cuidar dela também, de algum modo...
Durante muito tempo, levei vovó a todos os lugares desejados por ela, principalmente, aqueles nos quais ela obtinha cuidados médicos. Acompanhava vovó em suas consultas a dentista, dermatologista, oculista e geriatra. Estive com ela na maior parte das consultas e procedimentos. Todos gostavam demais de vovó; do seu jeito simples, de sua fala mansa, simpática. Dra. Sumaya Mahon, sua dermatologista, a atendia com muito ânimo. Sempre dizia que vovó lhe lembrava a sua avó e que eu aproveitasse o tempo que estava com ela. Ela me dizia: “eu era como você com a minha avó e ela faleceu no ano em que me casei...” Nunca me esqueci disso. Sempre que via Dra. Sumaya eu ficava imaginando sua saudade e agradecendo a Deus a possibilidade de estar com vovó ao meu lado.
Vovó era bem vaidosa e fazia alguns procedimentos para tirar uns sinais do rosto. Ah, tínhamos que ir logo, pois ela não gostava de tais sinais e tinha mania de ficar arrancando-os com as próprias mãos. O interessante é que o procedimento é bem dolorido, a pessoa leva injeções no rosto antes da retirada com laser e fica um tempo, após o tratamento, com a face meio ferida, até a recuperação total. Vovó, toda vez que fazia o procedimento, deixava a clínica dizendo que seria a última vez. Mas era só os sinais voltarem que ela me advertia: Karla, marque a médica que quero ir lá de novo; vou tirar essas coisas do meu rosto... E lá íamos nós novamente....
Levei vovó também à minha dentista, Narcisa Pessoa. Ela indicou que outra peça fosse feita para vovó pois a que ela usava já não era tão adequada para ela. Sua gengiva inferior já estava bem fininha, não dando tanto suporte à peça atual. Fomos atrás, fizemos o que pudemos para manter vovó com seu doce sorriso...
Vovó fez cirurgia de catarata e eu ia e vinha com ela ao oculista e às óticas, a fim de fazer seus óculos novos. Ela gostava de provar as armações e dizia querer apenas “coisa boa” para usar. Muitas vezes, seus óculos ficavam “encostados”, sem uso, mas para ela era importante ter escolhido algo de que gostasse, mesmo que seu uso não fosse freqüente...
Levei vovó também à minha terapeuta, Francimar Costa. Vovó adorava conversar com ela. Eram tardes em que eu sentia que vovó ficava mais animada. Com Fran, vovó conversava sobre sua vida, suas lembranças de família, seus receios ao futuro... Fran sugeriu atividades, uma terapia ocupacional e maior atenção por parte da família. Vovó lhe tinha um enorme carinho...
Seu geriatra foi o Dr. Daniel Kitner, indicado por Francimar. Vovó gostava dele. Ele era bom e gentil. Sinto apenas ele não ter conseguido dar a vovó a atenção que ela merecia, em seus últimos meses conosco. Ele foi avisado sobre seu quadro, mas nunca se pronunciou... Não vou julgá-lo, não sei seus motivos. Mas sempre penso que na escolha de nossas profissões algumas responsabilidades devem ser assumidas seriamente. Há muito envolvido, essencialmente, as emoções das pessoas. E isso é valioso demais para ser esquecido. Bom, mesmo que pareça uma crítica, é apenas uma reflexão...
Outro médico por quem vovó também tinha grande afeição era o Dr. Carlos Marinho. Hoje ele é o meu clínico também. Sempre atencioso com ela, foi ele quem descobriu acerca da anemia de vovó. Alertou a família sobre o quadro e os cuidados necessários e, a partir daí, a vida de vovó mudaria um pouco.
O organismo de vovó estava perdendo a capacidade de produzir hemácias eficazmente. Por causa da idade mesmo. Inicialmente, vovó precisou tomar remédios para estimular a produção do elemento sanguíneo. Depois de um tempo, a medicação já não surtia efeito e vovó necessitava de transfusões de sangue periodicamente... e este é um outro capítulo desta história.
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