Eu obedecia admirada com tanta informação. Como ela sabia daquilo tudo? E ela falava e separava as roupas. Eu só escrevia, não tinha captado ainda o significado do processo todo. Ela continuava: “deixa eu ver, me mostre o papel. Tudo certo aí? Anotou tudo? Muito bem. Agora escreva aí, calça comprida, tem a jeans e tem a de trabalho, mas vamos botar tudo junto mesmo, em calça comprida. Eita, que letra bonita, tudo arrumadinho... tá vendo? Melhor do que eu escrevendo”...
Só depois quando, as roupas todas separadas, ela começava a jogar tudo no centro de um lençol (de casal!) estendido no meio do quarto dela, contando as peças, foi que fui entender do que se tratava. Perguntei por que ela contava as roupas antes de mandar lavar. Ela explicou que era para depois conferir se a moça devolvia tudo e para saber quantas peças iam. Achei aquilo tão inteligente! Ela me dizia que eu a ajudava muito, porque não precisava contar tudo e ir, ao mesmo tempo, anotando. Eu me sentia o máximo. Toda semana, a partir daí, tínhamos esse ritual. Eu já ia buscar os cestos e chamava vovó. Algumas vezes, ela dizia: não, ainda não está no tempo. Acho que era a minha ansiedade em fazer tudo aquilo de novo. Eu gostava.
Minha avó não me ensinou a “só” contar roupa. Ensinou-me muito mais, a me sentir útil, importante. Fazia algo tão grandioso, de uma forma tão inteligente. Ela me ajudava me pedindo ajuda, já pensou?
Ainda hoje, conto roupa. Do jeitinho que ela ensinou, categorizando as peças, uma embaixo da outra na lista. Às vezes, quando estou muito cansada, chamo Breno para contar comigo. Ele anota. Nesses momentos, me sinto “vovó”. Sinto-a repetindo tudo para mim. Sinto-me passando o sentido de uma ajuda generosa e da grandiosidade de se sentir útil, ajudar a quem se ama.
Minhas roupas são contadas. Nem sempre confiro na volta da lavagem, quase nunca, na verdade. Mas não deixo de contar. Isso me aproxima de minha avó.
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