O tempo vai passando e, vez ou outra, leio esses escritos para complementá-los ou para afagar o coração. Sempre me emociono com uma ou outra passagem aqui deixada. Realmente, um refúgio. Um local para o qual sempre pretendo retornar quando quiser ou precisar. Minha intenção inicial era encaminhar essas palavras impressas aos meus familiares e amigos logo após a partida de vovó. Mas o tempo foi passando e fui colocando outras datas, como o primeiro mês de sua partida, depois o seu aniversário, depois o aniversário de um ano de sua ida, depois outras datas... E assim foi até agora, quase um ano e meio depois que ela nos deixou.
Esse “livro” virou uma espécie de diário de lembranças, inacabado. Porque elas são inacabadas. Em meu dia a dia, constantemente, lembro de coisas que vovó me disse, de coisas que vivemos juntas. Passo por lugares onde estivemos, aonde fui levá-la, por onde gostaria de ter ido com ela... Sempre penso em escrever sobre tudo, o que faria dessas páginas talvez o dobro ou o triplo do que são. Fico pensando que não dá para acabar... Ou melhor, são tantas coisas ainda a serem ditas que não sei como acabar... Gostaria de falar de todos os momentos que passaram e talvez até dos que virão. Coisas do tipo: como partilharia tal momento de minha vida com ela, ou o que ela me diria em tal e qual momento....coisas assim...
Escrever sobre ela me faz senti-la mais perto. Finalizar esse “livro” talvez me dê uma conotação de fechar mais um ciclo, de pontuar, mais uma vez, alguma etapa deste relacionamento. É preciso desapego...
Desapego para deixarmos ir e partilharmos...sem necessariamente “perdermos”. Vovó me ensinou isso também. Muitas coisas para mim passaram a ter outro sentido depois de sua partida. Tanta coisa que era importante ficou sem tanta significância. Pois se eu poderia aprender a viver sem a presença física de minha avó, conseguiria também viver sem um monte de coisas que um dia julguei serem relevantes. É assim, aprendi isso.
Joguei tanta coisa fora com a mudança de nossa casa da Imbiribeira. O símbolo de toda essa vivência com vovó. Uma referência de 31 anos presente, representada em tijolos, grades, jardins e terraços em U. Joguei fora coisas que guardei quase uma vida inteira. Permaneci com as agendas e lembranças, fotos e alguns cartões de pessoas queridas. Fiquei com alguns livros de vovó também. Guardei um casaco seu, que sempre estava com ela, em muitos de seus momentos. Guardei ainda um dos seus vestidos. Tinha o seu cheirinho agradável... E sempre recorria a ele quando queria me sentir mais próxima dela. O resto foi jogado fora. Uma lição de desapego.
Mantive as lembranças, além dessas peças que as reforçam. Mantive a escrita dessas palavras aqui expostas como um resgate futuro do que pode vir a se perder no tempo. Mantive o amor a vovó. Aliás, esse não mantive como tal, ele tem aumentado sempre... Se isso é possível...
Mantenho a esperança no futuro, no tão comentado reencontro que muitos cristãos crêem. Mas sinto que está chegando a hora de deixar ir, de passar adiante essas minhas memórias.
É que fico pensando em quantas coisas ainda me restam a dizer. E se eu me lembrar de algo importante e não tiver mais como escrever e partilhar isso? Por isso decidi fazer também um blog. Esse sim, poderá ser atualizado constantemente. Aí o ciclo parece não fechar... Até mesmo porque, no blog, terei a interação e os comentários de meus familiares e amigos e de todos aqueles que quiserem compartilhar... Comecei a configurar este blog no sábado, 30/04/2011. Assim que estiver pronto, avisarei a todos da família. O seu endereço é este: http://sobreminhaavo.blogspot.com/ e lá estão todos estes textos e mais alguns que sei, colocarei ao longo de minha vida. Não me sinto remoendo o passado ou me nutrindo de lembranças nostálgicas. Elas não me entristecem. Antes, me deixam bem. Eu me entristeceria em esquecer. Em não perceber a ausência de vovó em meus dias, como se as outras coisas tivessem tomado o seu lugar, preenchido o que antes existia. Sempre reagimos à perda. Sim, temos essa força, essa capacidade divina de seguirmos adiante. Creio que eu e todas as pessoas que conviveram com vovó temos conseguido fazer isso de maneira saudável. A saudade é conseqüência do amor que tivemos. Só se sente saudade do que foi bom. Por isso sentimos a sua falta.
Falar de vovó, para mim, é pensar em minha vida, em minha formação. É falar de um amor que pouco se encontra por aí, de uma personalidade e caráter que buscamos alcançar, para nos sentirmos mais próximos de Deus. É relembrar de fragmentos da vida com significância de formação do que sou. Do carinho recebido, do cuidado, da manifestação de afeto mais sublime. É pensar no presente, nas minhas atuais relações, no meu modo de agir e de reagir às coisas que me cercam. É pensar no futuro, em como serei como mãe, como avó. Em como deixarei esse mundo... Queria que fosse como vovó, rodeada por pessoas amadas, sem muito sofrimento, com muita oração, muita lembrança boa, muita gente para dar o seu adeus e falar do seu amor por mim. Conseqüências do que fui... flores das sementes que, por ventura, eu tiver plantado. Alegra-me pensar também, que em minha partida deste mundo, reencontrarei Dona Judith, a me olhar com aquele seu olhar terno e sorriso de “entre lábios”, abrindo seus braços para enfim, eu poder abraçá-la de verdade, ser acolhida, ser resgatada.
Por enquanto vou levando minha vida. Imaginando como seria cada momento com ela por aqui. É fácil, pois em quase tudo, eu tinha a sua aprovação. Sinto sua presença. Não algo sobrenatural, não é isso. Sinto a sua presença em mim. No que sou. Ouço sua voz em meu coração, em minha mente. Estou com ela! E vou levando a minha vida, partilhando com todos quem foi minha avó. Choro quando tenho vontade, sorrio quando desejo, falo sobre ela sempre que julgo conveniente, sonho com ela, possivelmente, sempre quando minha (in)consciência solicita sua presença.
Estou bem e desejo que meus familiares, principalmente os seus filhos, a minha mãe, fiquem bem também. Reconheço-me entre eles, (pretensiosamente, sim) como filha de Dona Judith. Sinto não ter vivido, como eles, tantos mais anos de minha vida ao seu lado. Mas não posso reclamar. Passei com vovó quase toda a minha vida.
Ela tinha muitas preocupações com seus filhos e netos. Sempre conversava sobre todos eles, seus casamentos, trabalhos, situações de vida. Sempre queria ajudar. Sempre queria estar perto para poder fazer algo para auxiliá-los. Queria estar presente nos momentos tristes e alegres. Lembrava de todos os aniversários e queria presentear a todos, um a um, não só em seus dias, mas em todas as datas festivas que existissem. Foram muitas as idas aos shoppings e lojas (com ela ou sem ela) para fazer essa sua vontade.
Às vezes, ela reclamava porque nem todos apareciam para vê-la. E antes de acharem que isso é uma crítica de minha parte, sintam-se honrados, pois ela queria a presença dos seus amados por perto. Só estou referenciando isso. Sei que cada um fez o que pode e deu o que tinha. E que vovó sempre esteve satisfeita com tudo. Sempre reclamados, uma vez ou outra, da ausência de nossos amados. Tem sempre horas que não achamos o quanto os vemos suficiente. Isso também é amar. Faz parte...reclAMAR.
Quero apenas reforçar aqui que vovó buscava uma vida boa para cada um de nós. Queria nos ver felizes, realizados com nossos desejos, seja lá quais fossem ou sejam até hoje. Gostaria, portanto, que se lembrassem disso constantemente. E se dessem o direito de buscar e reconhecer essa felicidade em família. Reforçar nossos laços, partindo de nossa casa, de nossos parentes mais próximos, nossos cônjuges, nossos filhos, os que nos rodeiam e nos fazem ser quem somos. Pensemos em vovó e busquemos melhorar. Fazer as coisas que realmente interessam para preencher nossas vidas. Ter atenção aos outros, cuidar de quem amamos, dizer isso às pessoas. Se não em palavras, em gestos. Acho que a gentileza é a melhor forma de expressão da educação e do amor. Façamos mais gentilezas com os nossos.
Deixemos nossos problemas levarem o tempo necessário à resolução, fazendo o que estiver ao nosso alcance para saná-los e buscando ter a paciência necessária a que se resolvam no que não pudermos interferir. Não criemos problemas onde pode haver harmonia. Não nos preocupemos com aquilo que não temos gerência sobre e acalmemos o nosso coração diante destas situações. Isso é ter fé. Isso é esperar e perseverar na Vontade de Deus. Creio, sinceramente, que vovó ficaria feliz em nos ver assim, harmonizados com a vida e com a divindade.
Acho que a maior lição de vovó foi o serviço. Passou a vida servindo aos que amava e conhecia. Da forma dela, nem sempre perfeita, nem sempre ideal. Mas sincera e solícita, atuante e presente. E isso é o que interessa. Sigamos esse seu exemplo. Enchendo o coração de humildade e afeto, tentemos servir aos que nos cercam. Sanar suas dores e acatar suas necessidades. Isso é também, essencialmente, o que Jesus nos ensinou. Façamos! E sempre que pensarmos em nos entristecer pela ausência de vovó, lembremos do quanto Ele deve estar cuidando de uma filha tão aplicada, que tanto deixou de exemplo a quem a conheceu e teve o enorme prazer de viver ao seu lado.