segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Vovó Judith, dois anos de saudade!!!


Falar em como o tempo passa é recair num chavão de nossas vidas. A todo o momento, percebemos que ele parece correr mais rápido, transformando nossas percepções, intenções e sentimentos. O tempo que tudo cura, que tudo apazigua, que tudo resolve. O tempo que vai deixando marcas, lembranças vividas, memórias cada vez mais embassadas de momentos que se foram. O tempo sábio. O tempo louco. O tempo e suas inúmeras denominações, geralmente pautadas por nossos sentimentos de momento.
Pois bem, o tempo passou, desde aquele dia em que vovó nos deixou... e tem passado em sua velocidade própria, nos fazendo ter a certeza de que ela não está mais aqui. Nossas vidas se readaptando, ganhando novos rumos... E vovó Judith participando de tudo isso de uma forma diferente. Talvez velando e torcendo por nós, de onde quer que ela esteja; talvez em nós, na nossa maneira de lidar e viver (aprendida por toda uma vida ao seu lado); talvez conosco, em nossas memórias, em nossas inspirações. Mas não mais aqui, em presença física, isso é fato!
Antes de começarmos as lamentações por este fato, pensemos em como temos nos saído nestes dois anos. A saudade é grande, porém amenizada pela conformação, pela fé, pelas boas lembranças, pela esperança no futuro, talvez. A saudade permanece, com suas inúmeras formas de se manifestar: olhos marejados ao sentir sua falta; sorriso nos lábios, ao lembrar de seus comentários; tranqüilidade diante das atribulações, ao pensar em seu proceder; generosidade com os outros, ao recordar de seu incessante serviço de amor a todos nós... Vovó permanece em nós, em nossa família, em nossos encontros...como este que ocorreu neste sábado. Ela está em nós, porque somos tudo o que ela sempre representou, somos reflexos do que ela tão bem projetou no mundo.
Sei que a saudade, em muitos de nós, pode ser ainda dolorida. Revigoremos nossas forças! Pensemos em vovó com alegria, com ânimo, com AGRADECIMENTO. Só se sente saudade do que foi bom. E tê-la em nossas vidas foi, realmente, uma grande dádiva de Deus! Pensemos nisso, nesta valiosa oportunidade que todos vivemos, em ser filhos, netos, sobrinhos, amigos, partes da mesma família. Pensemos em seu sorriso tímido, em seus ensinamentos, em sua postura diante da vida. Pensemos em suas histórias conosco, em suas preocupações para o nosso bem...e sigamos confiantes de que ela permanece entre nós.
Hoje é um dia de referência de sua partida. Mas todos os outros são dias de referência de sua permanência em nós. Vamos rezar, vamos pensar em vovó pedindo a Deus sua felicidade eterna e a manutenção da nossa, mesmo na ausência física de alguém que nos foi tão cara e especial. Desejo, mesmo, família, que todos estejam em paz e tranqüilos, com esta perspectiva de saudade e de momentânea separação. E que nossos esforços, hoje, por vovó, sejam de afastar qualquer tipo de lamentação dolorosa, de revolta ou de tristeza desesperada por sua ausência. Ver a todos nós bem é o que, com certeza, ela desejaria, a qualquer tempo, em qualquer tempo e em qualquer dimensão. Façamos, então!

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

34. É um menino!

24 de agosto de 2011


Vovó com Fabian

            Quando vovó estava doentinha, eu escutava um ou outro comentário, muito tímido, sobre ouvirem ela se lamentar que não veria meus filhos nascerem. Na época, lembro que sentia uma conformação muito grande, embora meu desejo fosse o de que ela pegasse um filho meu no colo ou que, por um momento que fosse, essa criança pudesse sentir o amor desta senhora, que parecia um bálsamo em nossas vidas, revigorando nossas forças (assim como foi comigo...).
            Mas creio que minha conformação advinha de minha crença de que não “encerramos” por aqui, com nossa morte física. Sempre acreditei que ainda que vovó não estivesse aqui entre nós, ela nunca, jamais, estaria longe de mim ou deixaria de ver os meus futuros filhos. Às vezes me surpreendo em ter alguns sentimentos tão desprendidos. Não sei de onde vem essa força, essa constatação. Na época em que ouvia esses comentários, sentia uma breve lamentação visitar minha mente, mas logo era afugentada por esta crença. Talvez eu soubesse da grande possibilidade de vovó não ver mesmo meus filhos, em vida, e logo, meu inconsciente arrumava um jeito de me proteger.
            Já chorei algumas vezes pensando nisso, mas sempre fui consolada com esses pensamentos de eternidade e por aquele conhecido copo d´água que ela mesmo me ensinou a tomar, para acalmar a alma.
Vovó recebendo Sofia
dos braços de Breno
             Vovó se foi... e convenci meu coração de que agora, de forma mágica, ela estaria mais próxima aos meus filhos, pois ela estaria “lá”, de onde eles vinham. Ela os encaminharia para mim, quem sabe? Ela os veria de uma forma que nós humanos, somos limitados a perceber. Ela seria uma espécie de anjo da guarda iluminado, a lhes mostrar o melhor caminho a seguir e a protegê-los com a força de seu amor. Sim, convenci meu coração. Ainda assim, em alguns momentos, me vejo pensando em fotos que jamais serão tiradas, ela com eles nos braços ou numa pose familiar qualquer... Mas são pensamentos céleres, passageiros, ligados ainda à minha porção não desprendida, humana, racional.
             Engravidei um ano e meio após a partida de vovó desta vida. Engravidei no mês de seu nascimento. No mês de maio, mês de vovó... Nos primeiros dias, logo em que soube, sequer consegui dar a notícia a alguns familiares. Não conseguia falar que seria mãe sem me lembrar de vovó, de que ela não estava mais aqui para me escutar dizer (embora minha outra porção, aqueeela mais “espiritualizada”, acreditasse que ela já sabia, antes mesmo de mim). Mamãe ou Breno eram encarregados de dar a notícia. Eu chorava, de alegria e de saudade. Um misto de vinda e partida, de plenitude e falta. Como cabem ambigüidades em nós... Minhas porções humana e espiritualizada que o digam...
             Mas o tempo passou. Ah, esse elemento... consolador, ponderador... evidenciou a parte mais elevada, devolvendo-me a conformação. Os dias passaram e todas as novidades da gravidez vieram junto. Corpo mudando, mal estar, sono impulsivo, expectativas futuras...cada etapa vivenciada ao seu tempo. Às vezes, minha memória pegava emprestadas palavras de vovó que foram endereçadas a Surama, quando ela estava grávida, aperreada com tantos enjôos, e imaginava vovó me dizendo o mesmo: "tenha paciência, fia, tudo vai passar..." Vovó esteve sempre em minhas lembranças, nos sonhos, na minha saudade.
             Desde que engravidei, dei tempo ao tempo, a que tudo acontecesse. Saber o sexo do bebê seria mais uma destas etapas, que eu viveria ao seu tempo, no momento certo. Não me senti ansiosa nem com pressa em saber. Também não sentia nada do que dizem sentir algumas mães, que “desde sempre” sabem, indubitavelmente, o sexo da criança que geraram. Não sabia, não sentia, não desconfiava. E nem tinha preferências. Acho que o primeiro filho é sempre uma dádiva, seja de que sexo for. E talvez, por desejar ter mais de um, dois ou quem sabe, três filhos, eu tenha esperança de que os dois gêneros se façam presentes, uma hora ou outra. Então não importaria qual deles daria início à série.
             Entretanto, aproximando-nos da décima sexta semana de gestação, minha médica já havia feito uma previsão de que este seria um momento “batata” para saber o sexo do bebê. E sugeriu uma ultrassonografia à esta época. Data e possibilidades definidas, minha porção calminha começou a dar lugar à ansiedade pela identificação. Seria uma quarta feira, dia 24/08/2011. No sábado anterior, sonhei com vários exames. Eles se alternavam entre resultados de “menino” e “menina”. Conclusão ao amanhecer? A mesma de sempre: poderia ser qualquer um dos dois!
             Mas aí, um novo fato ocorreu: dois dias antes do exame, um instante apenas antes de despertar, ouvi, em meus sonhos, alguém falar: “sua avó Judith mandou dizer que será um menino”. Acordei de pronto! Coração batendo forte. Respirando fundo, convenci-me de que tinha sido apenas uma forte impressão. Uma impressão tomada pela emoção do momento e pela lembrança de vovó, sempre constante em meu amanhecer.
             Mas então, no dia anterior ao exame, outro sonho. Desta vez, ela não “mandou dizer”. Vovó Judith aparecia na cabeceira da cama na qual eu estava deitada, rodeada por papai, mamãe, Breno, Surama e um médico que ouvia o coração do bebê. E ela dizia com ar de certeza: “está vendo aí, fia, não lhe falei que era um menino? Olha ele aí. É um menino!”. Acordei! Agora mais desconfiada do que na noite anterior, embora ainda considerasse que poderia ser um reflexo do sonho prévio, uma tentativa do meu inconsciente em confirmar o que tinha sido uma forte impressão na outra noite. Bom, agora faltava pouco para saber...
             O que eu não sabia era que, durante o exame, ao médico dizer que era um menino, minha porção saudade apareceria tão contundente. Na sala com o médico, Breno segurando minha mão e mamãe ao lado, pude escutar novamente a doce voz de minha avó, confirmando não só o que tinha me dito no sonho (“batata!”), mas principalmente, que ela realmente NUNCA me deixou, que ela sabia antes de mim, que ela o preparou, de certa forma, para mim e que, possivelmente, ela nos acompanhará durante muito tempo.
             Chorei novamente de alegria e saudade, de plenitude e falta, por ser mãe e por ser "filha", por meu menino e por minha avó... Em meio a tanta ambigüidade, minha porção maior se felicitou: mais uma prova de nossa eternidade se renovava ali, entre uma vida que se foi e uma que virá... E eu lá, uma vida no meio, para testemunhar, amar e escrever sobre tudo isso...

terça-feira, 5 de julho de 2011

33. Mais sobre vovó Judith, por Tio Sales

Tio Sales e vovó Judith, em Aracaju - SE
Muito bom poder recordar e conhecer novos fatos sobre D. Judith, principalmente através de eventos que marcaram as vidas de cada um de nós, familiares e amigos. Quando recebi o livro de Karla, durante o São João de 2011, ainda em Arcoverde, fiquei preocupado com o conteúdo que estaria no capítulo “saudades do tio Sales”, só o lendo no dia seguinte.
Parabéns a nossa escritora pelas recordações e revelações de uma relação ímpar entre avó e neta. Para nós outros, resta-nos aproveitar a iniciativa e retomar a idéia de registrar nossos momentos vividos com nossa querida D. Judith. De minha parte, vou pegar carona em algumas passagens do livro de Karla.
            O acidente ocorreu comigo, numa Brasília. Tinha ido com Mamãe buscar os meninos na Escola, Fabian, Surama e Karla (não lembro exatamente quem). No retorno para casa, vindo da Imbiribeira, ao virar a esquerda para pegar a Rua Jean Emile Favre, um Passat, que deveria ter virado a sua direita (vinha pela Emile), continuou em linha reta e bateu no meu lado, próximo ao retrovisor. O motorista, um senhor de idade, disse que vinha distraído, após participar de um velório. O laudo do DETRAN confirmou quem foi o “barbeiro”, cuja neta me fitava com muita raiva quando da entrega do resultado da perícia. Ninguém se machucou. Uma multidão surgiu de repente, Mamãe ficou acalmando os meninos, Karla chorando, uma confusão! Logo surgiu um amigo meu, o qual levou Mamãe e os meninos para casa, de taxi.
            Minha ida para a Bahia serviu para confirmar o caminho que D. Judith sempre criou para mim, talvez um paradoxo: apesar de nosso apego mútuo, Mamãe sempre me preparou para enfrentar de frente, e sozinho, as dificuldades que surgiam. Quando morávamos na Rua São Miguel, no Jiquiá, em 1970, acordou-me às 03 horas da madrugada para ir apresentar-me ao Exército, no Forte Brum, no final do Recife Antigo. Fui de ônibus até o Centro e de lá, a pé, até o Forte, numa noite escura (sem lua). Deu tudo certo, pois naquela época não havia riscos de assaltos e violência como nos dias de hoje. Fui dispensado de servir por insuficiência de peso e excesso de altura!
Na época eu pensava que sempre resolvia sozinho minhas coisas e que ela respeitava essa minha postura de não precisar da ajuda de ninguém. Hoje, vejo que era ela que me induzia a enfrentar de frente as dificuldades, apenas me orientando de longe.  
            A distância impede o contato diário, quebrando relações pessoais que se tornam fragmentadas. Cartas e visitas periódicas, cada vez mais espaçadas, tentam minimizar as perdas irrecuperáveis de uma relação diária entre familiares. Além de Mamãe e demais familiares, havia deixado aqui, também aflita, Neném. Um drama total! Mas, com a graça de Deus, após 18 longos anos de aprendizados, tive a felicidade de retornar ao Recife em maio de 1996, retomando uma relação quase que diária com D. Judith e demais familiares.
            Outro fato demonstra como Mamãe tentava me mostrar sempre a realidade dos fatos. Neste caso, D. Judith foi influenciada por brincadeiras de outras pessoas da família que não entendem de música, e que passavam a errônea idéia de que eu cantava muito mal. Um certo dia, na casa de Sonia, após ouvir Diogo tocando e cantando com um violão (destaco que Diogo canta muito pior do que eu!), ela chamou-me junto à sua cadeira de balanço e disse, bem baixinho: Diogo também tem dificuldade para cantar, assim como você, não é?
Meio sem jeito, respondi-lhe que eu estava tentando ensinar violão e canto a Diogo, mas o bichinho era ruim de serviço. Daquele dia em diante, aceitei a triste verdade de que canto muito mal, pois mãe nenhuma do mundo iria falar que um filho querido canta mal se isto não fosse algo muito grave. Mas repito, D, Judith foi influenciada negativamente pelas brincadeiras de TODOS e, principalmente, por ter ouvido Diogo CANTAR algo! 
Uma única vez sonhei com D. Judith: ela estava sentada numa cadeira, junto a qual estava eu e Sonia, abraçando-a. Ela estava muito sorridente e feliz, falando que estava muito bem. Isto me conforta muito. Parecia algo real.
Assim tem sido nossa vida, aprendendo a conviver e vencer as dificuldades que surgem, na certeza de que muitos dos que já se foram estão zelando por todos nós.
Sales Vidal

terça-feira, 28 de junho de 2011

32. Ilvinho deixa sua mensagem...


Tive contato com o livro ontem (domingo 26/06/11) às 05:30h quando me arrumava para voltar ao Recife, depois de mais um São João inesquecível ao lado de pessoas que tanto amo, mas que não sei expressar.

Confesso-te que, naquele momento, não consegui ler nem mesmo a contracapa, pois fui tomado por uma emoção que precisei sair da casa de Mércia para que não me vissem chorando.

Ao chegar a Recife pedi a Sheyla para ficar com o livro, pois iria lê-lo rapidamente já que havia terminado outro durante a estada em Arcoverde. Ledo engano, durante a tarde tentei novamente folhear suas memórias, mas não me contive novamente.
 

Somente hoje consegui iniciar e concluir a leitura e fiquei encantado com suas palavras, como elas nos fazem relembrar momentos que foram colocados de lado pela rotina diária.


Ilvinho, Rodrigo, Karla e Surama,
Rua Zeferino Pinho, ainda sem asfalto. Brincamos muito aí...

Lembro vagamente de quando vocês moravam no Ipsep, pois morei lá perto e ia andando pra lá. As maiores lembranças são da casa da Imbiribeira, das tardes que passávamos brincando após voltar do Colégio Santa Bárbara, inclusive da vez que o pastor alemão se soltou e nós ficamos pendurados no portão da garagem até vovó prender ele novamente, parece que o nome dele era "Jow". Lembro ainda de um Fiat 147 que tia Sônia nos levou uma vez para praia, de um corcel que tio Geraldo tinha, papai na época tinha um Passat amarelo "neutrox". Lembro do homem que vendia quebra-queixo durante a tarde, da geladeira que tinha um bebedouro embutido, de tio Geraldo fazendo a barba com um barbeador elétrico (achava aquilo o máximo e sonhava fazer a barba um dia usando um daqueles, mas confesso que ainda não tive coragem de comprar um), e uma particularidade que me veio à cabeça agora de que Surama dormia com as pernas cruzadas; agora os bolinhos na hora do almoço eram o que havia de melhor na face da terra.

Não tenho muitas recordações de ir para Arcoverde de ônibus com vovó, mas lembro bem de irmos uma vez com Cláudia para a rodoviária antiga e de nós estarmos na escada rolante com Cláudia bem cuidadosa com a gente. Lembro mesmo é das viagens na caminhonete de tio Geraldo, aquela carroceria tem muita história. Lembro da fazenda de Toré e tia Selene, lá aprendi a atirar com Silvinho e tinha o cabrito que ele criava; tinha o papagaio que cantava "acorda Maria Bonita, levanta e vem fazer o caféééééé..."; de quando desligavam as luzes na virada do ano; lembro do colete que Surama usava, mas não me recordo do episódio de vovó cair no buraco da cama, acho que não era eu, como poderia me esquecer de um episódio desses; e foi atrás da cisterna da fazenda que dei meu primeiro beijo numa prima ou amiga de Ditinha, não me recordo bem o nome dela, mas sei que era o mesmo nome de uma marca de margarina da época. Foi incrível como narrei para Melissa, na viagem de ida, toda ladainha das cidades (Vitória, Gravatá, Bezerros, ..., inclusive Mimoso) quando ela me perguntou se faltava muito para chegar, não sei se aprendi com vovó ou apenas copie de vocês o enredo. Lembro da casa perto da estação de trem, pois Silvinho tinha o disco de Michael Jackson (thriller), era um sucesso. E da outra casa bem grande que tinha os Filas Brasileiros.

Da casa de tia Solange lembro do relógio "cuco"; que tinha uns amigos de Mércia que eram caminhoneiros e que faziam transporte de combustível para Arcoverde, eles gostavam de falar sobre assombrações e apesar de fingir que nem ligava, eu morria de medo, não gostava nem de passar na frente das funerárias que tinham na rua que levava para o Bandeirantes, muitas vezes eu convencia Mércia a nos levar pela rua de trás. Lembro que Júnior namorava uma “moça” lá perto do hospital onde Priscila nasceu e Júnior pegou um monte de babosa para passar no cabelo durante o banho. Aprendi com Júnior a fazer ovo frito na margarina e depois Surama me ensinou a fazer no óleo, isso já foi na casa de Itamaracá. Júnior e Fabian não se entendiam muito bem, mas sempre estavam juntos.

Esqueci de perguntar a Silvinho sobre as máquinas de futebol que tinham no parque, era como se fosse "totó", mas tinha apenas uma manivela para movimentar o goleiro e outra para girar os jogadores, nem lembro o nome; tinha a roda gigante e o show de Roberto Carlos que passava todo ano.

Convivi um tempo com Rodrigo e Sandro, onde eles tinham um jogo que ligava atrás da televisão e era tipo paredão; foi lá também que aprendi a comer bolacha cream-craker com doce de goiaba no lanche.

Não tive muito contato com tio Sales, pois este sempre morou longe, só ouvia falar dele, mas nunca o via.

O aniversário de 90 anos eu não podia perder por nada, troquei o plantão na clínica e fui pra festa, nunca tinha visto tanta gente junta, mas foi muito emocionante poder participar daquele momento.

 Sei que fiquei ausente durante muito tempo, mas estou tentando resgatar esses laços, vejo hoje que a família é a unidade mais importante na vida do cidadão e que inconscientemente absorvi valores passados por meus familiares que carrego até hoje. Eu estava atônito na casa de tia Selene, perguntando a Samantha o nome dos “pirralhas” e filhos de quem eles eram, é muita gente. E saber que tudo isso começou com uma simples “senhorinha” de biotipo franzino e palavras doces.
Ilvinho e eu, não sei onde nem quando... "só sei que foi assim".


Não quero que Karlinha fique convencida com minhas palavras, mas como ela já narrou que era a neta preferida de voinha, tenho que confessar que ela é minha prima preferida, também não sei explicar por que, “só sei que foi assim”.

Um beijo no coração de todos.
Ilvio Vidal




















segunda-feira, 27 de junho de 2011

31. D. Judith Partiu... por tio Sales

E nos deixou um exemplo de vida. Foram 97 anos e meio de dedicação total a todos os seus filhos, netos, bisnetos, genros, noras, demais familiares e tantos amigos. Sempre serviu bem a todos.
Nunca a vi reclamando ou falando mal de alguém. Se ferida, suportou sozinha suas aflições e sempre perdoou a todos. Em alguns momentos, para ratificar sua enorme paciência para com as adversidades, sua filha Sônia a chamava de Jó.
Sua pequena estatura física poderia esconder uma aparente fragilidade, logo dissipada após um primeiro contato. Foi nossa líder solitária. Deu-nos exemplos de humildade e perseverança, lutando contra tantas adversidades ao longo de sua vida. Após a partida de nosso pai, Pedro, lá atrás, em 1967, assumiu sozinha todas as responsabilidades pela família França Vidal.
Num período de maior necessidade, para conseguir alguns poucos trocados, vendíamos coco verde de um pé em nosso quintal e, também, jornais velhos. Dava para comprar o pão e leite do dia. Foi uma grande lição de luta e grandeza.
Até o final de sua vida terrena, Deus a preservou de doenças, talvez como forma de ajudá-la a servir melhor a todos nós. Próximo ao final de quase cem anos de vida, como resultado de fadiga biológica, sua saúde declinou e a abateu fisicamente. Mas, em sua sabedoria maior, Deus nos proporcionou momentos inesquecíveis de novos aprendizados com D. Judith. Cada um de nós tem seus e peço que nos contem (vamos construir uma rede internet).
Um dia, ao visitá-la, ela pediu-me para não deixar de vir sempre àquela casa. Entendi seu pedido como para que não deixasse de visitar sempre a todos aqueles que formam a nossa família. Repasso este pedido de D. Judith a todos. Aquele já foi um primeiro momento de despedida.
Principalmente nestes últimos anos de sua vida, notei que D. Judith tinha preparado outros auxiliares para continuar a sua missão de nos ensinar mais sobre a vida. Aprendi muito com Sônia, Solange, Selene, Solon e Sílvio, cada um a seu modo diferente de se comportar neste período. Minha esposa Nenê e meus filhos, Diogo e Tainá, me deram lições de muito amor e dedicação. Não esqueço que D. Judith sempre perguntava como estavam Amanda (a “menininha”), Sandra e Paulo. Me emocionei com Fabian e Pedrinho ao vê-los chorar junto a D. Judith. Aprendi também, com Karla e Surama, sempre presentes em todos os momentos. Aprendi também com Breno, Andréa e Eugênio, por seu amor e atenção com D. Judith. Com Geraldo, por considerá-la como sua segunda mãe. Solange, antes a mais emotiva, mostrou determinação por ter sido a única dos filhos a querer ver D. Judith em seus momentos derradeiros no leito da UTI. Certo dia, D. Judith pediu-me para levá-la à casa de Júnior e Roseneide para conhecer a nova bisneta, Ana Clara. Aprendi muito com Mércia, por sua espiritualidade e emoção para servir. Cláudia, Pedro, Pedrinho e Priscilla também me ensinaram sobre o amor a D. Judith. Um dia entenderemos como Pedro foi levado à UTI do hospital na noite de sua partida. O “porque” já sabemos: foi para permitir que parte de nossa família pudesse estar junta naquele momento.
Com Solon, Lena, Rodrigo, Sandro e Lali, aprendi pela emoção e disponibilidade em servir, juntamente com Tati e Mônica. Selene, Toré, Silvinho, Judith e Jeane sempre formaram a segunda casa de D. Judith, sempre aberta quando de suas visitas a Arcoverde. Com Sílvio, aprendi pela disponibilidade para ajudar, junto com Ilza, Ilvinho, Sheyla e Samantha.
Enfim, acredito que D. Judith deixou uma boa equipe para continuar a repassar seus ensinamentos de vida, sem esquecer que Vitinho, Vinícius, Maria Alice, Sabrina, Felipe, Sofia, Netinho, Anna Luíza, Giovanna, Camila e Ana Clara estarão aí firmes pra continuar a redistribuir o amor recebido de D. Judith.
Acredito que este foi o seu maior desejo: o de ter formado um grande família. E ela conseguiu. Agora, cabe a cada um de nós preservarmos esta conquista.
Apenas nos piores momentos de dor, incluindo as dores renais e de um infarto, D. Judith reclamou, implorando a Deus para cessar tanto sofrimento, que a chamou para perto de Si, poupando-a de mais aflições. Sem sabermos, no momento exato de sua partida, estávamos todos juntos na sala de espera da UTI do hospital, de mãos dadas, orando a Deus por D. Judith. Logo após a oração, chamaram Diogo, que logo em seguida retornou com o sinal de sua passagem para uma nova vida. Apesar da tristeza em vê-la partir, só temos a agradecer a Deus por nos ter dado a chance de conviver com D. Judith. Para todos que com ela conviveram, D. Judith foi uma verdadeira dádiva de Deus, que nunca mais será esquecida.
Minha mãe partiu. Nossa mãe Judith partiu. D. Judith partiu.
Acredito que, a partir de agora, ela já está ajudando a todos nós, e a quem mais necessite, como um anjo de Deus, ao seu lado, eternamente.
Recife, 14 de novembro de 2009
Em nome de todos os filhos de D. Judith, Sales.

30. Como Finalizar? E Por que?

              O tempo vai passando e, vez ou outra, leio esses escritos para complementá-los ou para afagar o coração. Sempre me emociono com uma ou outra passagem aqui deixada. Realmente, um refúgio. Um local para o qual sempre pretendo retornar quando quiser ou precisar.
Minha intenção inicial era encaminhar essas palavras impressas aos meus familiares e amigos logo após a partida de vovó. Mas o tempo foi passando e fui colocando outras datas, como o primeiro mês de sua partida, depois o seu aniversário, depois o aniversário de um ano de sua ida, depois outras datas... E assim foi até agora, quase um ano e meio depois que ela nos deixou.
            Esse “livro” virou uma espécie de diário de lembranças, inacabado. Porque elas são inacabadas. Em meu dia a dia, constantemente, lembro de coisas que vovó me disse, de coisas que vivemos juntas. Passo por lugares onde estivemos, aonde fui levá-la, por onde gostaria de ter ido com ela... Sempre penso em escrever sobre tudo, o que faria dessas páginas talvez o dobro ou o triplo do que são. Fico pensando que não dá para acabar... Ou melhor, são tantas coisas ainda a serem ditas que não sei como acabar... Gostaria de falar de todos os momentos que passaram e talvez até dos que virão. Coisas do tipo: como partilharia tal momento de minha vida com ela, ou o que ela me diria em tal e qual momento....coisas assim...
            Escrever sobre ela me faz senti-la mais perto. Finalizar esse “livro” talvez me dê uma conotação de fechar mais um ciclo, de pontuar, mais uma vez, alguma etapa deste relacionamento. É preciso desapego...
            Desapego para deixarmos ir e partilharmos...sem necessariamente “perdermos”. Vovó me ensinou isso também. Muitas coisas para mim passaram a ter outro sentido depois de sua partida. Tanta coisa que era importante ficou sem tanta significância. Pois se eu poderia aprender a viver sem a presença física de minha avó, conseguiria também viver sem um monte de coisas que um dia julguei serem relevantes. É assim, aprendi isso.
            Joguei tanta coisa fora com a mudança de nossa casa da Imbiribeira. O símbolo de toda essa vivência com vovó. Uma referência de 31 anos presente, representada em tijolos, grades, jardins e terraços em U. Joguei fora coisas que guardei quase uma vida inteira. Permaneci com as agendas e lembranças, fotos e alguns cartões de pessoas queridas. Fiquei com alguns livros de vovó também. Guardei um casaco seu, que sempre estava com ela, em muitos de seus momentos. Guardei ainda um dos seus vestidos. Tinha o seu cheirinho agradável... E sempre recorria a ele quando queria me sentir mais próxima dela. O resto foi jogado fora. Uma lição de desapego.
            Mantive as lembranças, além dessas peças que as reforçam. Mantive a escrita dessas palavras aqui expostas como um resgate futuro do que pode vir a se perder no tempo. Mantive o amor a vovó. Aliás, esse não mantive como tal, ele tem aumentado sempre... Se isso é possível...
Mantenho a esperança no futuro, no tão comentado reencontro que muitos cristãos crêem. Mas sinto que está chegando a hora de deixar ir, de passar adiante essas minhas memórias.
            É que fico pensando em quantas coisas ainda me restam a dizer. E se eu me lembrar de algo importante e não tiver mais como escrever e partilhar isso? Por isso decidi fazer também um blog. Esse sim, poderá ser atualizado constantemente. Aí o ciclo parece não fechar... Até mesmo porque, no blog, terei a interação e os comentários de meus familiares e amigos e de todos aqueles que quiserem compartilhar... Comecei a configurar este blog no sábado, 30/04/2011. Assim que estiver pronto, avisarei a todos da família. O seu endereço é este: http://sobreminhaavo.blogspot.com/ e lá estão todos estes textos e mais alguns que sei, colocarei ao longo de minha vida.
            Não me sinto remoendo o passado ou me nutrindo de lembranças nostálgicas. Elas não me entristecem. Antes, me deixam bem. Eu me entristeceria em esquecer. Em não perceber a ausência de vovó em meus dias, como se as outras coisas tivessem tomado o seu lugar, preenchido o que antes existia. Sempre reagimos à perda. Sim, temos essa força, essa capacidade divina de seguirmos adiante. Creio que eu e todas as pessoas que conviveram com vovó temos conseguido fazer isso de maneira saudável. A saudade é conseqüência do amor que tivemos. Só se sente saudade do que foi bom. Por isso sentimos a sua falta.
            Falar de vovó, para mim, é pensar em minha vida, em minha formação. É falar de um amor que pouco se encontra por aí, de uma personalidade e caráter que buscamos alcançar, para nos sentirmos mais próximos de Deus. É relembrar de fragmentos da vida com significância de formação do que sou. Do carinho recebido, do cuidado, da manifestação de afeto mais sublime. É pensar no presente, nas minhas atuais relações, no meu modo de agir e de reagir às coisas que me cercam. É pensar no futuro, em como serei como mãe, como avó. Em como deixarei esse mundo... Queria que fosse como vovó, rodeada por pessoas amadas, sem muito sofrimento, com muita oração, muita lembrança boa, muita gente para dar o seu adeus e falar do seu amor por mim. Conseqüências do que fui... flores das sementes que, por ventura, eu tiver plantado. Alegra-me pensar também, que em minha partida deste mundo, reencontrarei Dona Judith, a me olhar com aquele seu olhar terno e sorriso de “entre lábios”, abrindo seus braços para enfim, eu poder abraçá-la de verdade, ser acolhida, ser resgatada.
            Por enquanto vou levando minha vida. Imaginando como seria cada momento com ela por aqui. É fácil, pois em quase tudo, eu tinha a sua aprovação. Sinto sua presença. Não algo sobrenatural, não é isso. Sinto a sua presença em mim. No que sou. Ouço sua voz em meu coração, em minha mente. Estou com ela! E vou levando a minha vida, partilhando com todos quem foi minha avó. Choro quando tenho vontade, sorrio quando desejo, falo sobre ela sempre que julgo conveniente, sonho com ela, possivelmente, sempre quando minha (in)consciência solicita sua presença.
Estou bem e desejo que meus familiares, principalmente os seus filhos, a minha mãe, fiquem bem também. Reconheço-me entre eles, (pretensiosamente, sim) como filha de Dona Judith. Sinto não ter vivido, como eles, tantos mais anos de minha vida ao seu lado. Mas não posso reclamar. Passei com vovó quase toda a minha vida.
            Ela tinha muitas preocupações com seus filhos e netos. Sempre conversava sobre todos eles, seus casamentos, trabalhos, situações de vida. Sempre queria ajudar. Sempre queria estar perto para poder fazer algo para auxiliá-los. Queria estar presente nos momentos tristes e alegres. Lembrava de todos os aniversários e queria presentear a todos, um a um, não só em seus dias, mas em todas as datas festivas que existissem. Foram muitas as idas aos shoppings e lojas (com ela ou sem ela) para fazer essa sua vontade.
Às vezes, ela reclamava porque nem todos apareciam para vê-la. E antes de acharem que isso é uma crítica de minha parte, sintam-se honrados, pois ela queria a presença dos seus amados por perto. Só estou referenciando isso. Sei que cada um fez o que pode e deu o que tinha. E que vovó sempre esteve satisfeita com tudo. Sempre reclamados, uma vez ou outra, da ausência de nossos amados. Tem sempre horas que não achamos o quanto os vemos suficiente. Isso também é amar. Faz parte...reclAMAR.
            Quero apenas reforçar aqui que vovó buscava uma vida boa para cada um de nós. Queria nos ver felizes, realizados com nossos desejos, seja lá quais fossem ou sejam até hoje. Gostaria, portanto, que se lembrassem disso constantemente. E se dessem o direito de buscar e reconhecer essa felicidade em família. Reforçar nossos laços, partindo de nossa casa, de nossos parentes mais próximos, nossos cônjuges, nossos filhos, os que nos rodeiam e nos fazem ser quem somos. Pensemos em vovó e busquemos melhorar. Fazer as coisas que realmente interessam para preencher nossas vidas. Ter atenção aos outros, cuidar de quem amamos, dizer isso às pessoas. Se não em palavras, em gestos. Acho que a gentileza é a melhor forma de expressão da educação e do amor. Façamos mais gentilezas com os nossos.
            Deixemos nossos problemas levarem o tempo necessário à resolução, fazendo o que estiver ao nosso alcance para saná-los e buscando ter a paciência necessária a que se resolvam no que não pudermos interferir. Não criemos problemas onde pode haver harmonia. Não nos preocupemos com aquilo que não temos gerência sobre e acalmemos o nosso coração diante destas situações. Isso é ter fé. Isso é esperar e perseverar na Vontade de Deus. Creio, sinceramente, que vovó ficaria feliz em nos ver assim, harmonizados com a vida e com a divindade.
            Acho que a maior lição de vovó foi o serviço. Passou a vida servindo aos que amava e conhecia. Da forma dela, nem sempre perfeita, nem sempre ideal. Mas sincera e solícita, atuante e presente. E isso é o que interessa. Sigamos esse seu exemplo. Enchendo o coração de humildade e afeto, tentemos servir aos que nos cercam. Sanar suas dores e acatar suas necessidades. Isso é também, essencialmente, o que Jesus nos ensinou. Façamos! E sempre que pensarmos em nos entristecer pela ausência de vovó, lembremos do quanto Ele deve estar cuidando de uma filha tão aplicada, que tanto deixou de exemplo a quem a conheceu e teve o enorme prazer de viver ao seu lado.

29. Queda Bem Humorada

            Dia desses, lembrando das quedas de vovó, recordei-me de uma que não foi tão tensa. Éramos pequenos, estávamos em mais uma de nossas viagens de férias em Arcoverde. Local: fazenda de Tia Selene e Toré. Cenário de muitas de minhas lembranças infantis. O terraço que rodeava a casa toda, limitando um “jardim” sem limites... Havia terra, muita terra e, ao longe, cercas que delimitavam o local. Mas cercas tão distantes que nossos olhos de criança pouco podiam avistar.
Ali fora, havia currais, celeiros e pastos. Lugares que se transformavam em verdadeira aventura visitar. Eu, com toda a minha ginga de menina de cidade grande, ficava toda por fora, querendo aprender, pegar nos bois, fugir das galinhas. Lembro de Judith ali, confortável e tranqüila com tudo do ambiente. Toda corajosa, me chamando: “vem Karla”, “coloca a mão na cabeça do boi”, “alisa a cabra aqui”... me orientando naquilo que eu achava tão surpreendente. Queria aprender, perder o medo, saber fazer aquilo tudo. A cada nova temporada de férias, sentia-me mais confiante e segura. Mas a sensação de aventura sempre era a mesma. Esta, permaneceu.
Na casa grande, eram quatro quartos bem confortáveis. O de tia Selene, uma suíte, ficava numa espécie de quina. Em sua frente, havia um pequeno corredor onde, ao final, era o quarto de Judith e, ao lado, um banheiro social. Vizinho à suíte, havia um quarto onde assistíamos televisão. Este, ficava próximo à cozinha, um dos locais mais espaçosos da casa. Tinha uma mesa grande, de madeira, de um lado e os aparatos de cozinha do outro. Mais adiante, podíamos ver uma sala enorme, com dois ambientes, onde havia uma mesa grande de jantar de um lado, e do outro lado, sofás, som e centro. No canto da sala da mesa grande de jantar tinha um outro quarto, o quarto de Silvinho.
A despensa era fora da casa, com suas latas de leite condensado que pareciam riquezas a serem alcançadas. Ir à despensa era explorar o território em busca deste tesouro. E não era um leite condensado comum. Não. O de lá, quando aberto, exibia um leite condensado denso, já quase um doce de leite cremoso. Era o calor que emanava no quartinho, ia cozendo as nossas riquezas comestíveis. Tornava tudo mais especial.
Lembro ainda do frio. Ui, todos os aposentos, em tempos frios pareciam ainda mais aconchegantes. Recordo de termos dormido em quase todos os quartos (exceto a suíte). Havia épocas que dormíamos no quarto de Silvinho, de Judith ou no quarto da televisão. De comum a todos eles? A escuridão da noite. Um breu tão grande que sequer víamos os dedos de nossa mão à frente de nosso rosto. Em todos eles, o aconchego da presença de vovó a me proteger, a me dizer que estava ali, do meu lado.
Pois bem, o episódio que segue ocorreu no quarto da televisão. Eram três camas postas paralelamente, uma delas era uma cama de campanha, daquelas de ferro que se montam abrindo ao meio. E a quarta cama era uma das que existia na fazenda, de madeira, tipo baú, colocada perpendicularmente às outras três.
Surama, a esta época usando o seu colete (para correção da coluna), já estava devidamente deitada, na cama do canto. Eu ajudava vovó a arrumar as outras camas. Não lembro agora quem seria a outra pessoa que dormiria conosco...talvez fosse Ilvinho...
Então vovó foi puxar a cama de campanha para armá-la bem direitinho. Eu de um lado (da parede) e vovó do outro (perto da cama baú). Quando ela começou a se afastar, abrindo a cama, o espaço estava curto e os calcanhares de vovó toparam na base da cama baú. Neste momento, vovó desequilibrou e caiu para trás, sentada. Tudo poderia ter sido mais tranqüilo (e muito menos engraçado) se simplesmente vovó permanecesse sentada na cama. Mas não. Ela foi afundando. Aliás, ela afundou tão rápido que, quando vi, só havia cabeça, pernas e braços visíveis de vovó. O resto estava enterrado num buraco da cama.
Vendo que vovó ria demais, se divertindo com a situação, eu também caí na gargalhada. Já era tarde e todos estavam deitados. Mas, de tanto rirmos, nem eu tinha força de levantar vovó (e ainda era muito pequena para isso, talvez uns 8, 9 anos...) e nem vovó conseguia, porque só fazia rir...
Surama, roboticamente, levantou o tronco e se mostrou preocupada, mandando eu parar de rir e ajudar vovó. Mas simplesmente, não conseguíamos! Depois, acho que passada a preocupação inicial da cena e vendo que tinha sido apenas um susto, Surama uniu-se a nós em risadas e questionamentos de como aquilo teria acontecido.
Os risos foram tantos que tia Selene, Toré, Judith e Silvinho foram até o nosso quarto. Chegando lá, viram aquela cena de vovó enterradinha no colchão, num buraco ao canto da cama. Só perninhas balançando e sorriso ecoando.
É engraçada a nossa memória. Tanto esta que me faz lembrar deste evento, após tanto tempo, como a memória que tive no momento que vovó caiu na cama. Automaticamente, lembrei de uma cena que havia visto à tarde, e que fazia todo o sentido. Mais cedo, brincando com Judith, passei pela cozinha e vi tia Selene fazendo um de seus trabalhos da escola. Ela sempre foi muito jeitosa com seus trabalhos escolares, cartazes, artes manuais... E neste dia a vi com uma tábua enorme, que fazia parte da estrutura da cama (do estrado), fazendo-a de régua para traçar uma linha em uma cartolina. Lembro que pensei: “eita, que massa, a madeira da cama é régua”. Pois é, a régua que não voltou para seu lugar, a régua ausente que desalinhou a segurança de vovó. Tia Selene não a havia posto de volta. Ficou o buraco na cama. O buraco que acolheu vovó em seu desequilíbrio momentâneo. O buraco que preencheu aquela noite de risos e, hoje, minha mente de recordações tão bacanas...

28. O Almoço com os Filhos

            Depois do seu aniversário de 90 anos, que eu me lembre, surgiu um novo ritual familiar. Sempre nos reuníamos, à noite, para celebrar os parabéns a vovó. Entretanto, durante o dia, havia um evento nuclear: o almoço de vovó com seus seis filhos.
            Lembro que iam ao Parraxaxá e outros restaurantes juntos. Sempre se reuniam com este intento. Era o momento deles. De colocar a conversa em dia, de passear com vovó, de comemorar ali, na base da família. Tia Selene e Tia Solange vinham de Arcoverde, o que, por si só, já se constituía em um evento para vovó. Tio Silvio reaparecia, geralmente, após um bom tempo sem tê-la visto, o que, para ela, sempre era uma grande alegria. Mamãe, tio Sales e tio Solon completavam esse momento tão especial.
            Aí já viu, dia de aniversário, vovó que geralmente acordava cedo, começava com as preocupações em se arrumar. Tomar seu banho, escolher e separar a sua roupa. Vestir-se, pintar-se. Perguntar se estava bem. Colocar um colar, uma pulseira. Não tinha as orelhas furadas para usar brincos. Demos a ela alguns de pressão, mas como quem usa sabe, chega uma hora que eles incomodam demais. Apertam os lóbulos da orelha e depois, parecem apertar nosso juízo. Às vezes, vovó ainda tentava. E vou confessar uma coisa: apesar de tudo, achava vovó mais bonita sem tantos aparatos.  Olho para as fotos de meu casamento e, vendo vovó toda arrumada, pintada, “escovada”, não encontro, de cara, minha avozinha. Só mais adiante, foco fixo nos seus olhinhos, dá para ver sua real beleza. A simplicidade que a caracteriza.
            Mas enfim, ela gostava de se ajeitar. Com antecedência, ficava aguardando a chegada do filho que ia levá-la. Dividiam-se em dois carros, pois todos juntos, não dava para ir. Eram sete ao todo. Foram três Marias e três Josés que minha avó colocou no mundo. Parecia até que ela sabia que um almoço animado se faz com mais de cinco pessoas... Ficava imaginando quais seriam as suas conversas. Seriam lembranças de suas vidas partilhadas? Seriam memórias infantis que eram relembradas? Sempre tive essa curiosidade e, é engraçado, pois nunca questionei isso nem a mamãe nem a tio algum. Muito menos a vovó, com quem sempre conversava e perguntava o que havia passado. Acho que via esse momento como privado, sei lá. Um momento muito deles, muito próprio. Podia ser algo até comum, corriqueiro. Mas eu achava muito especial.
E para vovó? Sua satisfação era visível. E apesar de demonstrar certo cansaço, quando chegava, sempre elogiava a comida, o lugar, o evento. Eu achava o máximo esse momento familiar... Vovó e suas crianças. A cada ano, talvez mais grisalhos todos, filhos-pais, filhos-avós...mas as eternas crianças de vovó, os “para sempre” filhos-filhos.
            Algumas pessoas, especialistas (médicos, terapeutas, dentistas...) ou não (gente da vida comum), comentavam que vovó era “nova e saudável” por não haver tido grandes tristezas na vida, como a morte de um filho, por exemplo. Sempre citavam esse fato como um evento que poderia ter desestruturado sua sanidade ou sua saúde física. “A dor sem nome”. A dor de quem sente revertido o curso natural da vida, no qual os filhos vêem partir primeiro os seus pais... Vovó, realmente, felizmente, não a experimentou. Viu seus pais partirem, muitos de seus tios, seu marido, muitos de seus irmãos...mas nunca um filho. Não sei se se mensuram essas dores. A perda é sempre muito difícil.
Eu olhava para vovó e a achava uma guerreira. Via-a em nosso núcleo familiar, mas ficava me questionando o que ela sentia em relação ao dela, de sua origem. Quando algum irmão de vovó partia, eu particularmente, ficava impressionada com a sua serenidade. Ela sofria sim, chorava. Mas logo adiante a víamos com tranqüilidade, a dizer que “assim é a vida”, que temos que nos conformar, que é a vontade de Deus. Ficava olhando para vovó e me questionando intimamente se o tempo conseguia essa façanha também. Ainda hoje, um dos meus maiores medos é ver morrer os meus amados. Medo que, inicialmente, vovó tem me ensinado a lidar. Até hoje, mesmo em sua partida, ela continua me ensinando coisas fundamentais. Mas olhava para ela e não entendia ou não concebia quanta calma, tanta lucidez, tanta serenidade.
            Não sei responder, nem imaginar se ela as teria mantido, caso houvesse “perdido” algum de seus filhos. Realmente não sei. Nem sei também se sua lucidez, saúde e mansidão se davam por este motivo. Mas sei que Deus foi, novamente, imensamente generoso com vovó. Ela partiu rodeada por seus filhos, em oração. E apenas onze dias depois de sua partida, o seu primeiro filho homem, tio Silvio, foi ao seu encontro. Ela pode, não apenas não vê-lo partir, como também recebê-lo em outra dimensão, junto aos anjos do céu.
            Não, nem sempre. Nós não entendemos os desígnios da vida, nem as propostas de Deus para nossas vidas. Mas tem momentos que devemos admitir nossa ignorância e insignificância diante de Sua sabedoria. E assim, aceitar o que Ele propõe para nossa existência e aos de quem amamos. Talvez essa confiança e conseqüente aceitação é o que nos torne mais serenos. Talvez ela venha com o tempo, com a maturidade, com a vivência... Talvez seja isso o que vovó tenha alcançado ao longo dos anos, que a fez manter sua serenidade e lucidez. Não sei, talvez... Esses pensamentos ainda me rondam com incerteza e admiração.

27. O Aniversário de 90 anos

            Festa! Sim, toda a família, em 2002, era unânime na decisão de celebrar a vida e os 90 anos de Dona Judith. Ela, claro, acatou tudo. Missa pela manhã, encontro com familiares durante a tarde, para a grande festa, à noite, em nossa granja de Aldeia. Um evento e tanto.
            Foi tudo muito bem feito, rodeado de uma atmosfera muito saudável entre todos nós. Vovó gostava de celebrar, de ver as pessoas queridas. Umas dessas pessoas, que estava sempre presente, era sua sobrinha Edna, uma figura constante em seus aniversários. Principalmente depois desse, de 90 anos, não me lembro de um ano sequer que Edna não tivesse ido lá em casa visitar vovó. E como vovó gostava dessa visita! Com o tempo se preparava e estranhava se Edna demorava. As duas riam muito, conversavam sobre o tempo em Buíque. Para vovó, era uma retomada de momentos de sua vida tão bons e significativos. Edna era a presença viva e o resgate atual de tudo aquilo. Creio que vovó se renovava nestes encontros. Mas voltemos ao seu aniversário de 90 anos...
            Durante a missa, pela manhã, vovó de vestido verde, ficou o tempo quase todo lá no altar da igreja, escutando as ações de graça pela sua existência. Ao final, muitas fotos foram tiradas, com todos os familiares presentes. Vovó cantou, bateu palmas durante as músicas, agradecia e balançava a cabeça, afirmativamente, sempre que algo era dito a seu respeito. Escutava o padre e as palavras do evangelho, sempre relacionadas ao agradecimento pela vida.  Em alguns momentos, ela parecia um pouco cansada, mas não demonstrava isso de forma a expressar descontentamento ou querer desistir do “projeto” comemoração. Apenas um cansaço natural, já inegável devido mesmo ao motivo de nossa celebração: a sua idade. O tempo quando passa, além de acalmar a alma das ansiedades, de amenizar as dores vividas, de nos deixar mais sábios e prudentes, também limita nossas forças. O cansaço físico é reflexo de sua passagem em nós, por nós. Nossa mente quer permanecer, ouvir, interagir, mas nossas pernas, coluna e atenção querem repouso, ainda que seja para continuar mais firme posteriormente. São necessárias paradas. Paradas de reabastecimento. Suspiros de fortalecimento. Busca de mais energia, de reforço. Superação. Parecia ser isso o que vovó expressava...
Na noite de seu aniversário de 90 anos, fizemos um cartaz com a árvore genealógica, baseada no tronco forte que era vovó.  Nela, colamos as fotos de todos nós, representando os frutos de sua relação com vovô Pedro e de todos os outros que foram unidos à família por meio do amor.
Eram tantas as pessoas ali na granja, gente que eu nunca tinha visto em toda a minha vida. Todos querendo tirar fotos com vovó, conversar com ela. Creio que nesse dia eu fui ter a dimensão maior de quem era vovó “antes de mim”... Perdoem-me o foco centralizado, mas esses escritos contam a história de minha referência de vida em relação à vovó. Não é que queira só falar de mim, mas aqui, só posso falar do que sei, sobre mim e sobre ela. Pois bem, surpreendi-me com tantas mesas e mesas de parentes distantes, amigos e conhecidos de vovó, que tiveram com ela uma referência de vida também, além daquela que eu tinha conhecimento. Senti-me pequena e, ao mesmo tempo, significante. Pequena, porque não havia participado de grande parte daqueles 90 anos ali comemorados. Não tinha visto tudo, não tinha estado em todos os lugares (por isso às vezes, escutava com tanto entusiasmo os relatos de Edna; queria entender, fazer parte, ainda que como ouvinte, daquela vivência toda).  Mas sentia-me, como disse, também significante, pois tinha um sentido na vida de vovó que, sabia, era representativo. Eu era sua neta “da diária”, da rotina, do dormir e acordar, do cuidar e ser cuidada, do comer junto, do conversar à tarde, de pedir a benção antes de dormir... do dia a dia de seus últimos 30 anos, pelo menos. Contentava-me com este terço de vida de tanta qualidade!
As pessoas nos viam, falavam coisas sobre vovó, queriam também se aproximar de nós, como referência atual da história desta vida. Foi um dia e tanto! Vovó, em alguns momentos, parecia estar tão cansada que parecia ausente. Sem entender muito bem tantas informações ao mesmo tempo. Mas era tão lúcida minha avó, que sei, suplantou o cansaço para ser gentil. Ouviu tantos discursos. Eu e Surama, como sempre, começamos falando e terminamos chorando... Nem lembro mesmo se conseguimos terminar de falar! A emoção era grande demais no momento de expressar, em palavras, o que tínhamos a dizer. E não fomos as únicas. Eu e Surama, como sempre. Mas muitos que não são de chorar estavam ali, sem conseguir falar de seus sentimentos. Lembro de Bian, Pedro, papai... Filho a filho. Belas palavras, muitos abraços...e vovó sempre sorrindo. Calmamente, ternamente. Sua humildade em receber tantas homenagens era igualmente comovente. Ô criatura amada!
Depois de seus 90 anos, graças a Deus, festejamos mais sete. Não com tanta pompa e circunstância como este. Mas com mais amor, mais agradecimento a cada ano que passava e que Deus nos permitia compartilhar nossas vidas com vovó. Cada ano era uma nova dádiva. Acho que comemorávamos sua vida e nossa alegria em tê-la, bem, ainda conosco. Todos os familiares se reuniam. Em nossa casa da Imbiribeira, o dia 25 de maio se tornou agenda prioritária. As fotos também eram prioridade. Fazia questão de eu mesma reunir, um a um dos presentes, para tirar fotos com vovó. Guardo-as todas. Distribuímos essas fotos depois que ela se foi, entre todos nós. Estávamos todos lá. Nem sempre com discursos proferidos ou expressões externas de nosso contentamento. Mas bastava nos olhar nos olhos para reconhecer, implicitamente, aqueles sentimentos presentes em todos nós: o agradecimento e a alegria de, por mais um ano, estarmos juntos ali, com o nobre motivo de celebrar aquela vida tão querida e importante para todos nós!

26. "De Fato é Mesmo"

           Vovó tinha vários bordões. Seu jeito de falar, hora ou outra, vem à minha mente, como se ela estivesse bem aqui, conversando comigo. Além de suas frases históricas como “menina cheia de nove horas” quando estávamos inventando algo fora dos padrões, cheias de nossas “cavilações”, que acabo de ver no dicionário significar “proposta traiçoeira”, vovó tinha seus modos de conversar que, azeitados por sua voz inconfundível e doce, tornava a palestra sábia, agradável. Seu modo de concordar conosco recheava o ar com a certeza do “de fato é mesmo”, como a contemplar nossa afirmação do alto de sua sabedoria e aprovação.
            Possivelmente, cada um da família tem seus ditos guardados. Tenho o seu “fia” impregnado em minha alma, como um reconhecimento do que sou para ela. Sempre me identificava com esse termo, que tanto me agrada o coração.
            Além dos sutis palavrões, já citados anteriormente, que de vez em quando soltava, lembro ainda de reclamar das “calcinhas curtas” de papai, referindo-se às suas bermudas, quando ia jogar sinuca nas tardes de domingo.
            De fato é mesmo uma cavilação da vida nos retirar alguém assim tão querido, embora saibamos que é seu curso e que não podemos perpetuar aquilo que finda com o tempo. Sim, fomos pegos de calça curta pela saudade, que esfria nossas pernas, faz tremer nosso coração, nos deixando cheios de nove, dez, onze... vinte quatro horas solitárias. É a saudade rainha que impera em nossos dias, como a nos submeter aos seus ditames. E nós, súditos, “fias” e “fios” deste sentir. Fios que se engrossam e se entrançam, se enlaçam e nos rodeiam. Fios de sentimentos que só podem perceber aqueles que foram “fias” e “fios” de verdade, do seu coração ou do seu sangue. Saudade que só sente quem amou e foi amado. Quem não amou passa despercebido, pelas nove horas, pelas cavilações, pelas lembranças. De fato é mesmo...