A presença de vovó e a educação de nossos pais nos trouxeram um valor importante, infelizmente, tão negligenciado em nossa sociedade: o respeito aos mais velhos.
Desde pequenos, por convivermos com vovó, nos foi ensinado por papai e mamãe o quanto deveríamos amar e respeitar aquela pessoa e todos aqueles que tivessem uma idade avançada. Eles já tinham vivido demais e sabiam das coisas mais do que qualquer um de nós. Por isso, não deviam ser contestados e deviam ser respeitados. Crescemos com orientações deste tipo.
Raramente, discutíamos com vovó. Lembro de algumas vezes, em minha época de adolescência rebelde, que quando eu respondia algo a vovó mais rispidamente, do quanto eu ficava mal e ia lhe pedir desculpas. Ela, parecia nem lembrar que havia existido algo...eu me envergonhava. Acho que isso aconteceu umas duas vezes, não lembro de mais... ainda bem!
Mamãe falava muito também do absurdo de alguns filhos colocarem seus pais em asilos, para serem cuidados por estranhos. Eu, na minha mentalidade de criança, ficava imaginando que tamanha crueldade desses filhos ingratos, pois sentia que jamais poderíamos fazer isso. E pensava em como é que eles não aproveitavam uma presença tão boa dentro de casa?
Essas orientações nos fizeram ser o que somos. Eu, Fabian e Surama não só respeitamos os mais velhos como também os admiramos. Já falei sobre isso antes. Nunca achei nada feio em vovó. Vejo crianças que se desfazem de seus avós dizendo que são velhos, que não querem sair com eles, que são feios, ou coisas assim... Vovó reclamava de seu cabelo branco, de suas manchas, de sua barriga e seios caídos com o tempo, reclamava de sua pele e de tantas outras coisas relacionadas à idade. Eu achava tudo tão natural, tão sublime. Agradecia tanto a Deus porque ela estava ali...
Creio que se os pais transmitissem isso aos filhos, o mundo seria melhor. As pessoas não temeriam tanto envelhecer. Porque o envelhecimento não traz só as limitações da idade, o envelhecimento, muitas vezes, traz o exílio, porque nossa sociedade é preconceituosa. Se todos os idosos fossem bem tratados, qual seria o problema em envelhecer? Ensinem seus filhos, acreditem nisso. Cultivem suas rugas como testemunhas de seu tempo. Não se envergonhem, valorizem o que já viveram. O fim é inevitável. Vamos vivê-lo intensamente e com dignidade, como foi com vovó Judith (embora ela ainda reclamasse).
Ver mamãe cuidando de vovó foi o testemunho factual de seu amor, de seu discurso. Acho que mamãe não aceitava muito ver sua mãe envelhecendo. Também, não é fácil. Nossos pais são nossos heróis, como admiti-los falíveis, dependentes? Vovó ensinou isso também.
Sei que essa lição, particularmente, para minha mãe, foi mais difícil. Sei que foi dolorosa, sofrida. Mas a admiro ainda mais por ter conseguido! Vovó, em seus últimos anos, só tinha uma referência: SÔNIA! Tudo dela era com mamãe. Mesmo quando era implicante, o era, porque sabia que sua filha não iria embora, não a deixaria. Queria mesmo talvez, reclamar da vida, de sua insatisfação com algumas coisas. Não era com mamãe, mas era mamãe quem tinha que escutar. Vovó era implicante como um filho que implica com o pai para chamar a atenção. Era relacionamento. Que bom, mamãe, que foi tão intenso!
Minha mãe se superou para continuar ao lado de vovó. Fez o que podia para lhe dar qualidade de vida, bem estar. Quando implicava, agora ela (tal mãe, tal filha!), era porque não sabia lidar com a situação. Era porque doía. Era porque não queria. Mas nem tudo é como queremos. E nem sei se sabemos o que queremos e se o que queremos é o certo. Mas foi assim. Mamãe, avalio, foi triunfante. Sua maior angústia era vovó estar na UTI, longe dos seus. Mamãe queria estar perto, ainda cuidar, até quando fosse possível.
Mamãe deu banho, alimentou, acariciou, ajeitou, se preocupou. Mamãe não dormiu, mamãe chorou, mamãe sorriu com os pequenos progressos de vovó na volta pra casa. E se decepcionou quando percebeu que sua expectativa de que vovó voltasse a “ser como era antes” não seria correspondida. Mamãe comprou remédio, comprou fraldas, comprou o leite nutricional, pagou as contas, pagou os pecados (se imagina que tinha alguns...agradeça a absolvição por meio do cuidado a vovó, mainha!). Fez tudo com uma dedicação que emociona a quem a acompanhava. Viveu tão intensamente o cuidado a vovó que, em nosso primeiro dia de luto, quando acordei, e olhei mamãe dormindo ao meu lado, pensei: quando mamãe acordar, o que ela fará agora? Como se sentirá?
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