Todos falam do contraste perceptível entre o tamanho físico de vovó Judith, tão pequenininha, miúda, fragilzinha, e sua grandeza e fortaleza de alma. Um contraste admirável. Ela não cabe no que é, transborda aos outros em forma de serviço e amor.
Sua voz doce, calma, tinha um timbre suave. Daquelas vozes que se quer escutar antes de dormir, contando uma história, falando da vida dela. Sua boca de poucas palavras, sorriso meio tímido, mas iluminado. Lábios fininhos, mas largos em comprimento. Muitos beijos carinhosos saíram dali. Muita palavra de força, conforto, conselhos... Abaixo de seu queixo, seu papinho que compunha seu rosto. Lembro que quando era pequena, ficava pertinho de vovó, balançando seu papo e dizia: vó, parece que tem uma gema de ovo aqui dentro. E ela ria demais...
E sua risada! Sua risada era uma filarmônica para a alma. Começava com uma espécie de arrancada, para depois finalizar suavizada, em seus lábios abertos largamente. Cabecinha para trás, olhinhos apertados e uma imensidão de alegria e luz ao seu redor.
Cabelinho branco, sempre de lado, sendo emborcado constantemente por suas mãos. Quando penteados, faziam camadas laterais, acima de suas orelhas (pois ai do cabeleireiro que deixasse suas orelhas à mostra...). Cabelo com cheiro bom, de xampu. Lavado diariamente e penteado inúmeras vezes com seu pente preto e vermelho. Ops, nada relativo a time. Depois falarei disso*.
Suas mãos tinham dedos longos, unhas bem desenhadas. Mãos de muito trabalho, mãos de afago. Mãos de organizar. Mãos de sinais do tempo, mãos de mãe, mãos de avó, mãos de bisavó. Mãos que tinham uma mania de pegar nos dedos e ficar alisando um por um, como que ajeitando, como que se sentindo, como que se distraindo do tempo passando... Mãos que dedilhavam o cabelo em cima da testa, da cabeça, como a ajeitar a aparência. Era vaidosa, minha avó. E era tão linda!!!
Os seus pés eram pequenos, delicados. Mas eram pés de muitos chãos. 97 anos e meio de caminhada... Eram pés de muita história, de muita labuta, de muita estrada trilhada. Pés que orientavam passos já miúdos, lentos. Vovó apoiava-se em nossos braços para caminhar. Passos, às vezes, cambaleantes, três para frente, um para trás a se equilibrar. Mas passos que trilharam uma vida amada e agora, por muitos, seguida.
Tudo em vovó era bonito. Os adjetivos e diminutivos seguem juntos em seu caso, quando queremos falar de seu jeitinho meigo (está vendo como aparecem fácil?). Lembro de olhar sua pele, já manchada, que ela tanto reclamava em observar, e achar tão sublime que ela fosse assim. Era seu registro no tempo. A marca viva de sua presença em nós. Não via a pele manchada, via a vovó vivida, via a vida de minha avó e que ela ainda estava ali.
O médico queria dizer que vovó era grandiosa; em outras palavras bem mais objetivas e coloquiais: que vovó não tinha “pirado” com tudo o que havia mudado à sua volta. Que ela se adaptava e se mantinha consciente de tudo. Porém, lembro dele ter insinuado que, por isso tudo, tivéssemos o entendimento de que nem sempre era fácil e que, possivelmente, às vezes dava um desânimo nela, em ter que lidar com tudo isso. E que isso era natural.
Será que o mundo tornou-se muito complexo para a minha avó? Será que aos poucos, ela desistiu de entender, aprender, se adaptar? Convenhamos, ela tinha todo o direito! Fez demais, merece intenso e sublime descanso, portanto!
* Embora deixe alguns da família tristonhos, devo dizer: Vovó era do Náutico! Em seus últimos dias, já bem fraquinha em casa, colocamos sua cadeira de rodas na sala, para que ela visse a televisão. Passava um jogo do náutico, do brasileirão. Perguntei a vovó o que acontecia quando a bola entrava naquela rede grande. Ela ficou muito tempo calada, de olhos fechados, sem reação. Pensei que sequer ela tivesse me ouvido. Depois de algum tempo, ela disse baixinho: gol? Vibrei tanto com aquela resposta, acho que como os pais vibram com as primeiras palavras de seu filho pequeno. Fazia sentido! Vovó nos entendia, estava interagindo conosco, a seu ritmo. Mas sabia o que dizia! Então, aproveitando o momento mágico, quis continuar a conversa e perguntei qual era o seu time. Ela então abriu os olhos, olhou meio de lado, sorriso no canto da boca e disse, como que a esperar minha reação: náutico. Eu ri demais. A abracei e beijei muito. Não era o time, não era o futebol. Era o reconhecimento, era a identificação. O maior gol de placa dos últimos tempos. Meu coração vibrou!