terça-feira, 5 de julho de 2011

33. Mais sobre vovó Judith, por Tio Sales

Tio Sales e vovó Judith, em Aracaju - SE
Muito bom poder recordar e conhecer novos fatos sobre D. Judith, principalmente através de eventos que marcaram as vidas de cada um de nós, familiares e amigos. Quando recebi o livro de Karla, durante o São João de 2011, ainda em Arcoverde, fiquei preocupado com o conteúdo que estaria no capítulo “saudades do tio Sales”, só o lendo no dia seguinte.
Parabéns a nossa escritora pelas recordações e revelações de uma relação ímpar entre avó e neta. Para nós outros, resta-nos aproveitar a iniciativa e retomar a idéia de registrar nossos momentos vividos com nossa querida D. Judith. De minha parte, vou pegar carona em algumas passagens do livro de Karla.
            O acidente ocorreu comigo, numa Brasília. Tinha ido com Mamãe buscar os meninos na Escola, Fabian, Surama e Karla (não lembro exatamente quem). No retorno para casa, vindo da Imbiribeira, ao virar a esquerda para pegar a Rua Jean Emile Favre, um Passat, que deveria ter virado a sua direita (vinha pela Emile), continuou em linha reta e bateu no meu lado, próximo ao retrovisor. O motorista, um senhor de idade, disse que vinha distraído, após participar de um velório. O laudo do DETRAN confirmou quem foi o “barbeiro”, cuja neta me fitava com muita raiva quando da entrega do resultado da perícia. Ninguém se machucou. Uma multidão surgiu de repente, Mamãe ficou acalmando os meninos, Karla chorando, uma confusão! Logo surgiu um amigo meu, o qual levou Mamãe e os meninos para casa, de taxi.
            Minha ida para a Bahia serviu para confirmar o caminho que D. Judith sempre criou para mim, talvez um paradoxo: apesar de nosso apego mútuo, Mamãe sempre me preparou para enfrentar de frente, e sozinho, as dificuldades que surgiam. Quando morávamos na Rua São Miguel, no Jiquiá, em 1970, acordou-me às 03 horas da madrugada para ir apresentar-me ao Exército, no Forte Brum, no final do Recife Antigo. Fui de ônibus até o Centro e de lá, a pé, até o Forte, numa noite escura (sem lua). Deu tudo certo, pois naquela época não havia riscos de assaltos e violência como nos dias de hoje. Fui dispensado de servir por insuficiência de peso e excesso de altura!
Na época eu pensava que sempre resolvia sozinho minhas coisas e que ela respeitava essa minha postura de não precisar da ajuda de ninguém. Hoje, vejo que era ela que me induzia a enfrentar de frente as dificuldades, apenas me orientando de longe.  
            A distância impede o contato diário, quebrando relações pessoais que se tornam fragmentadas. Cartas e visitas periódicas, cada vez mais espaçadas, tentam minimizar as perdas irrecuperáveis de uma relação diária entre familiares. Além de Mamãe e demais familiares, havia deixado aqui, também aflita, Neném. Um drama total! Mas, com a graça de Deus, após 18 longos anos de aprendizados, tive a felicidade de retornar ao Recife em maio de 1996, retomando uma relação quase que diária com D. Judith e demais familiares.
            Outro fato demonstra como Mamãe tentava me mostrar sempre a realidade dos fatos. Neste caso, D. Judith foi influenciada por brincadeiras de outras pessoas da família que não entendem de música, e que passavam a errônea idéia de que eu cantava muito mal. Um certo dia, na casa de Sonia, após ouvir Diogo tocando e cantando com um violão (destaco que Diogo canta muito pior do que eu!), ela chamou-me junto à sua cadeira de balanço e disse, bem baixinho: Diogo também tem dificuldade para cantar, assim como você, não é?
Meio sem jeito, respondi-lhe que eu estava tentando ensinar violão e canto a Diogo, mas o bichinho era ruim de serviço. Daquele dia em diante, aceitei a triste verdade de que canto muito mal, pois mãe nenhuma do mundo iria falar que um filho querido canta mal se isto não fosse algo muito grave. Mas repito, D, Judith foi influenciada negativamente pelas brincadeiras de TODOS e, principalmente, por ter ouvido Diogo CANTAR algo! 
Uma única vez sonhei com D. Judith: ela estava sentada numa cadeira, junto a qual estava eu e Sonia, abraçando-a. Ela estava muito sorridente e feliz, falando que estava muito bem. Isto me conforta muito. Parecia algo real.
Assim tem sido nossa vida, aprendendo a conviver e vencer as dificuldades que surgem, na certeza de que muitos dos que já se foram estão zelando por todos nós.
Sales Vidal

2 comentários:

  1. Primeiramente, gostaria de parabenizar a autora do livro: Parabéns Karla!
    Realmente era clara a grande proximidade existente entre Karla e D.Judith, e era evidente que meu pai era o queridinho da minha vó! =X
    Concordo também com meu pai quando ele diz que minha vó foi influenciada por brincadeiras maldosas a respeito da arte de cantar da nossa família. Afinal, todo mundo aqui em casa canta maravilhosamente bem! =D
    Bom, é difícil conviver com a perda, é enorme a saudade. Contudo, temos que lembrar que devemos sempre amar não só os que partiram como também os que estão ao nosso lado e os que ainda estão por vir.
    Grande beijo para toda família Vidal,

    Tainá Vidal

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  2. Estava aqui, relendo o blog e me emocionando com suas palavras, tio! Todo momento com vovó, mais do que nunca, se torna especial. Saber dela "antes de mim" é materializar mais sua história entre nós, trazendo-a mais para perto, conhecendo-a mais, amando-a sempre! Escreva mais... Todos, escrevam mais sobre ela. É tão essencial...Ainda mais com o tempo passando e a impossibilidade de novas memórias surgirem...a não ser, é claro, aquelas que veem nos nossos sonhos especiais! Beijos a todos! Karla

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